Estou para escrever, já há algum tempo, sobre a confissão de José Sócrates, reconhecendo que recebeu envelopes com dinheiro do seu amigo Carlos Santos Silva. No entanto, vários acontecimentos na Europa e no mundo, foram adiando as minhas intenções, de tal modo que quase desisti de escrever sobre o tema. Só não desisti porque o descaramento do nosso antigo Primeiro Ministro não me sai da cabeça, e porque francamente não vi no nosso país, com a excepção de um ou outro cronista – aqui no Observador -, a reacção que deveria ter surgido.

Vejamos o que aconteceu. Um antigo PM reconheceu que recebeu envelopes com dinheiro de um amigo, e trata esses “empréstimos” com a maior das naturalidades. Não constitui crime, diz ele; e os seus amigos, pelo menos, não discordam. É verdade que o empréstimo não constitui crime. Mas para mim, não sou agente judicial, o crime ou a corrupção não são relevantes neste contexto. Não estamos a falar de um cidadão comum, mas de um antigo PM.

Vamos começar com a natureza dos empréstimos e deixar de fora a amizade (o facto do José e o Carlos serem amigos é irrelevante do ponto de vista público). Os empréstimos não foram o resultado de uma amizade absolutamente desinteressada. Há outra forma de contar o que aconteceu. E nem sequer insisto no método dos empréstimos – em envelopes. Já me emprestaram dinheiro, já emprestei dinheiro, e foi sempre através de transferências bancárias, como deve fazer a maioria dos portugueses. Um antigo membro do Conselho de Administração de uma empresa de construção “emprestou” dinheiro a um antigo PM de um governo que exerceu funções durante o período em que essa empresa beneficiou de contratos de obras públicas. Foi isto que aconteceu. Será normal?

Os empréstimos poderiam ter vindo de um amigo sem relações empresariais com o Estado no seu passado. Ou de um amigo com fortuna feita no estrangeiro. Mas não. Foi um amigo que trabalhou numa empresa que ganhou muito dinheiro com contratos públicos durante os últimos governos do PS. Nenhum socialista, nenhum membro do PS, nenhum amigo de Sócrates acha isto estranho? Acham normal? A solidariedade socialista exprime-se através de envelopes com dinheiro? Será um hábito corrente? Ainda não ouvi um único socialista mostrar a mais leve estranheza pelo facto de um antigo PM ter recebido envelopes de dinheiro.

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Para ser ainda mais claro, vou colocar a mesma questão de outra maneira. Vamos imaginar que dois políticos de centro direita recebiam envelopes de dinheiro de amigos. Por exemplo, Santana Lopes e Paulo Portas – e só escolho estes porque são os “inimigos de estimação” da nossa esquerda – admitiam terem recebido presentes ou envelopes com dinheiro de amigos cujos negócios resultassem de relações directas com o Estado. O que diriam os mesmos que fazem hoje peregrinações a Évora? Achariam esses empréstimos normais? O Dr. Mário Soares já teria certamente apelado à queda do governo e a eleições antecipadas.

Um PM deve ser ainda mais escrupuloso e cuidadoso do que qualquer outro político. Estamos também perante um caso político. O facto de Sócrates admitir que recebeu dinheiro em envelopes de um antigo membro do Conselho de Administração, que assinou contratos com o Estado durante o seu governo, e não ver qualquer problema nisso, para mim, chega. Quem age e pensa assim nunca deveria ter sido PM nem sequer líder do PS. Uma democracia civilizada e decente não pode ter líderes políticos com estes comportamentos. Nós tivemos. Não vai ser fácil para Portugal sarar esta ferida moral.