Perguntou o discípulo A Confúcio:
“Mestre, se tivesses o poder qual seria a tua primeira medida?”
“Rectificar os nomes”, respondeu o Mestre.

No século XXI as classes dominantes e superiores ocidentais têm de aprender de vez a viver ligadas ao povo.
Christophe Guilluy (géografo e ensaísta explicando a crise dos Coletes Amarelos)

1 Quando falo em diferenças entre direita e esquerda refiro-me à esquerda e direita democrático-liberais.

E porquê justapor ao termo “democrático” o termo “liberais”? Para quê se não há “democracia” sem liberdades, incluindo, determinante, a de mercado (“o doce mercado” de que falavam Condorcet e Voltaire); sem direitos humanos (que o iliberalismo não reconhece ou viola), teorizados e politicamente instituídos no Ocidente pelos liberais, também eles criadores do ensino público, não foi o comunismo — Estaline até dizia que era crime proibir o trabalho infantil?

Coloco o “liberal” para distinguir da pseudo “democracia” que os iliberais da extrema-esquerda, roubando o nome legitimador, designam “democracia popular” — ignorando a redundância.

2 O destino do mundo depende de novo da democracia liberal, da lucidez e determinação dos democratas-liberais. Em Portugal, de um Partido Socialista que recupere os seus ideais fundadores, iluministas, humanistas, universalistas, e de uma direita que assuma informada e sem tibieza a sua inspiração democrática-liberal e cristã.

“Democracia” significa manifestação, representação e realização da vontade comum. “Liberal” consagra a autonomia do indivíduo face à colectividade. «Democracia» remete para um movimento centrípeto, uma preocupação de unidade. “Liberal” para um movimento centrífugo, reafirmação do diverso, do múltiplo. É o encontro, a tensão e a interacção  de um e de outro polo, espécie de Yin e Yang político, que gera a harmonia e o dinamismo das sociedades democrático-liberais. É nessa natureza híbrida que está a sua força.

Como escreve Raphaël Gluskmann*, “é a oscilação permanente entre esses dois polos opostos que permite às nossas sociedades serem livres e progredirem”.

Se o movimento de balança entre ambos for interrompido, se a contradição que os anima deixar de ser dinâmica, “se um dos polos se tornar dominante, a democracia deixará de ser liberal ou o liberalismo deixará de ser democrático”. Será o caso, em maior ou menor grau, de experiências de sucesso económico recentes, caracterizadas pela liberdade de mercado, mas restritivas politicamente.

3 Os dois polos da democracia-liberal que vivem ameaçados por dois extremos, faces simétricas do iliberalismo: a utopia colectivista, representada pelos totalitarismos da extrema-esquerda e da extrema-direita.

O da extrema-esquerda agora rearmada pelos “novos cavaleiros do Apocalipse” com quem tem sabido cavalgar, como bem designa Amin Maalouf**, “os três escolhos do nosso tempo: turbulências identitárias, islamismo radical, ultraliberalismo” (termo bem mais apropriado do que “neo-liberalismo), que está a corromper o papel regulador que um verdadeiro Estado liberal deve exercer.

O da extrema-direita renascendo em cima do deslizamento dos democratas liberais para essas causas delirantes, essa regressão civilizacional, anti-humanista.

É nas gerações com menos de 50 anos que não foram contemporâneas do nazismo nem descobriram a realidade da Guerra, da URSS e dos países do Leste (e também nas sobras idosas que não fizeram a destalinização); é entre os que não têm consciência do progresso e da qualidade de vida na Europa e no Mundo, inimaginável antes do triunfo da democracia liberal — todos esses que a escola conduziu e conduz à amnésia da História — que os iliberalismos recrutam hoje.

4 Diferenças dinâmicas entre esquerda e direita liberais que não são hoje exactamente as que eram antes, por ter havido apropriação mútua de ideias e soluções que o tempo e a História consagraram.

Segundo Alain Juppé***, “a direita dá uma importância maior ao indivíduo, à sua autonomia, capacidade de iniciativa e espírito empreendedor”. A esquerda dá “maior relevância ao colectivo, ao grupo, é socialisante, enfim”. [Sublinhados meus.]

Sendo ou não absolutamente rigorosa esta distinção, o que é relevante é as diferenças enriquecerem as soluções. São um fruto inestimável da liberdade, condição do vital debate de ideias. Na democracia liberal não há inimigos, há adversários e divergências criadoras. Não há soluções impostas, nem imposição de ideologias e de crenças. Por isso o convívio e a emulação democráticas fizeram progredir o mundo. Geraram a paz, desenvolveram o mundo e melhoraram a vida dos seres humanos. Determinaram a construção da unidade da Europa. Tudo isto espinhas na garanta do totalitarismo, da extrema-esquerda e da extrema direita, anti-liberais, nacionalistas e xenófobas.

5 Se esse movimento de balança se desequilibrar, se um polo prevalecer sobre o outro, a democracia ficará fragilizada e será vulnerável aos demónios que em permanência a ameaçam. É à luz deste mecanismo que devem ser compreendidas as dificuldades crescentes que em vários países conduziram e estão a conduzir ao poder o populismo, antecâmara do fascismo. E porquê? O que agora fragiliza a democracia-liberal é o que foi a razão do seu sucesso.

* Raphaël Gluskmann, Les enfants du vide, Allary Éditions, 2019
** Amin Maalouf, Le naufrague des cxivilisations, Grasset, 2019.
*** Entrevista ao semanário Le Point, 2018.