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Já tive medo de muitas coisas. De altura, de barata, de violência urbana, de turbulências em voos, de ratos e ratazanas, de mergulhar em mar aberto, de perder a cabeça, de perder prazos fatais, de perder os que amo. Mas dentre os meus tantos medos, havia um que eu não tinha. Até muito recentemente, eu nunca havia sentido medo de ter esperança.

Eu não tinha medo de acreditar num futuro bom, num amanhã com perspetivas e num horizonte de alguma normalidade. Mas agora eu tenho. E não sou só eu, acredito. Olhamos para a esperança como quem olha para um mar gelado e revolto, com medo de colocar a primeira perna ali dentro e, depois, de sermos puxados com violência e não podermos mais sair.

Quando me flagro dizendo frases como “quando estivermos todos vacinados, vamos marcar aquela tal viagem”, costumo sentir esse frio na espinha por me sentir razoavelmente esperançosa. E então me pergunto: bastará? Bastará a vacina? Estaremos seguros? Vamos, de facto, voltar a planear viagens com amigos e familiares como fizemos outrora? São as incómodas dúvidas que ecoam nos quatro cantos do mundo.

Confesso que, timidamente, num futuro ainda longínquo, me imagino indo a alguns bares que ficavam cheios, nos quais dançávamos a noite toda com nossas cervejas geladas na mão. Uma ponta de esperança me diz: será possível. Mas penso: o bar tinha janelas pequenas, as pessoas se acumulavam, não tem como. E um lado sonhador responde: a música era tão boa e todos sorriam tanto, tem que ser possível. Então digo para mim mesma: vai ser possível. Não em 2021. Talvez não em 2022. Mas, em algum momento, será, sim, possível, segundo a minha esperança ingénua.

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Todavia, algo no fundo me diz: são hipóteses. Tudo, absolutamente tudo o que você imagina agora, em termos de futuro, é mera hipótese. Uma voz metálica e desagradável diz, com acidez: não tenha esperança demais, você não quer se frustrar. E então eu respiro fundo, voltando ao medo de acreditar, o medo de projetar um futuro risonho, o tal estranho medo de sentir esperança.

Volto para meus trabalhos, meu quotidiano, minha pressa que não permite muito tempo dedicado a sonhos. Mas, curiosamente, a voz de Elis Regina ecoa na minha cabeça, dizendo que “a esperança, dança, na corda bamba de sombrinha e em cada passo dessa linha, pode se machucar. Azar. A esperança equilibrista, sabe que o show de todo artista tem que continuar”. E tem que ser. Continuemos. Algo há de vigorar.