Trabalho numa grande organização que está a passar pelo seu processo de transformação digital e tem numa parede um manifesto que se inicia com “Digital is a People Thing”.

Quando oiço apresentações sobre digitalização, falam sobre IoT, 5G, AI, sprints e produtos. E, eventualmente, sobre pessoas. E de facto, estou de acordo que é sobre pessoas. Mas é tão sobre pessoas, e tão obviamente sobre pessoas, para pessoas e por pessoas, que passou de ser tão simplesmente sobre nós para ser conceptualmente sobre nós! E é por isto, que gostava de consolidar algumas ideias:

  1. Se as pessoas não estiverem preparadas para lidar com o potencial das tecnologias digitais, não vale a pena fazer nenhuma transformação digital. E a transformação pressupõe que antes e durante aconteceu e acontece uma transformação das pessoas para as capacitar para o novo contexto. E as pessoas são pessoas, como eu e tu, e ou mudam por propósito ou resistem.
  2. As pessoas é que mudam ou resistem, não são as organizações. As organizações não existem, são um conceito abstrato que cultural, intelectual e até fisicamente se traduz em conjuntos de pessoas. Conjuntos de pessoas que queremos que sejam equipas, enquanto colaboradores empowered intelectualmente.
  3. As pessoas mudam todos os dias, e é muito difícil direcionar o sentido de uma mudança de forma massiva, para um determinado objetivo, num tempo estipulado. As mudanças acontecem passo a passo, e os primeiros passos, como no caso das crianças, são os mais desafiantes, mas também os mais impactantes e, por isso, os mais arriscados. Se dermos um passo em falso no nosso processo de mudança, numa fase inicial, como acontecem com os primeiros passos de um bebé, que prefere voltar a gatinhar porque 1) é mais estável 2) permite alcançar o mesmo objetivo, passa-se o mesmo com as equipas: a resistência é muito superior à partida e nem todos temos a obstinação de uma criança que continua motivada para se levantar e andar. É crítico aceitar a mudança por partes, num processo iterativo de erro e aprendizagem.
  4. Se são as pessoas que mudam, temos de parar de chamar-lhes “recursos” ou “organizações” ou outros apelidos literários. “If you mean people, say people”. Abordar pessoas como pessoas desperta em nós o instinto de pessoa. E é este instinto que nos faz praticar algo que soa muito pouco organizacional mas que é a essência das interações humanas, seja em que contexto for: a empatia. A empatia, capacidade de nos colocarmos na situação do outro, e conseguirmos adaptar a nossa atuação em função desse sítio que está além de nós. É neste espaço, entre mim e o outro, que se concretizam as verdadeiras mudanças, porque é nesta capacidade de dar o passo de confiança além, no sentido de um novo porquê, que estamos dispostos a mudar. A empatia é o coração da transformação digital. E este é um grande desafio, que se materializa em flexibilidade, transparência, autenticidade, tolerância, feedback.
  5. Os líderes são pessoas. E têm de ser pessoas com as pessoas que lideram. A empatia é o traço mais fundamental de qualquer pessoa em posição de liderança. Diz Serth Godin Leaders have followers. Managers have reports. Nenhuma transformação acontece sem seguidores, sem pessoas que escolhem evoluir num sentido diferente e conseguem influenciar outros. E o papel da pessoa líder é essencial na criação deste contexto de evolução, promovendo espaço e amplitude. Liberdade. As pessoas evoluem na liberdade. Apenas e só. É nesta liberdade que o conflito acontece como forma de aprendizagem e que floresce a criatividade.

O manifesto termina com a ideia de que “Digital is not heartless”. Digital é, sim, sobre pessoas e dá-nos ferramentas de personalização.  E o principal desafio reside precisamente no facto de a diferença e a singularidade serem os traços mais fundamentais de ser pessoa. A transformação digital acontece na valorização dessa singularidade mas sobretudo na confluência para o reconhecimento daquilo que nos é mais comum e essencial enquanto pessoas: tal como o digital, não somos heartless.

A Sara licenciou se em comunicação e, já a trabalhar, concluiu o seu mestrado sobre mudança e sobre os mecanismos necessários para a gestão dos processos de transformação das pessoas e das organizações. Trabalha há 7 anos na mesma empresa mas nunca parou de aprender, porque nunca nada parou de mudar. Muito pouco techie, trabalhou sempre com pessoas de áreas tecnológicas, o que significa que está sempre a fazer muitas perguntas.

O seu livro preferido é o Principezinho, que já leu mais de 20 vezes, e de cada uma das vezes apreendeu algo diferente, porque de cada uma das vezes, algo estava diferente nela, fazendo-a descobrir mais um pormenor na narrativa. O seu autor favorito é Fernando Pessoa e, tal como ele, acredita no mundo como num malmequer, com a mesma simplicidade, vendo na tecnologia mecanismos que nos permitem ser mais essencialmente pessoas e nos dão amplitude e poder transformador para mudar o mundo naquilo em que ele precisa de mudar.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.