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Do sínodo dos bispos, a imprensa retirou a ideia mais jeitosa: “divisões profundas na hierarquia da igreja”. Pouca gente escapou ao guião que manda ler os debates segundo a velha incompatibilidade entre “progressistas” e “conservadores”, ou entre “europeus” e “norte-americanos”. Ora, para compreendermos o problema do sínodo, vale a pena ignorarmos as matérias que em concreto o inspiraram, e descrevê-lo de uma maneira geral: deve a igreja admitir situações e opções (sejam elas quais forem) que até agora repreendeu, mas hoje são socialmente aceites? Posta assim, é possível sugerir que a questão não resulta apenas do mero prolongamento, igreja adentro, dos confrontos ideológicos ou contrastes geográficos do mundo profano, mas tem a ver com a própria ideia de igreja.

O dilema da igreja católica é que não foi concebida para ser uma parte, mas o todo. A sua vocação não é ser uma seita entre outras, mas toda a sociedade organizada religiosamente. Há correntes religiosas que não aspiram a incluir toda a gente, mas apenas os “eleitos”. Por isso, jamais admitiriam rever ensinamentos e atitudes apenas para acomodar quem não subscreve a colecção completa dos dogmas. A igreja católica é diferente. Não tem vocação para contra-cultura. Habituou-se a ser central. E para defender essa centralidade, parece tentada a dar todos os passos.    

Durante séculos, no Ocidente, a igreja foi fundamentalmente idêntica com a sociedade. Todos, com poucas excepções, nasciam para ser baptizados e tinham a sua vida regulada pelos sacramentos. Do ponto de vista histórico, isto não era apenas o resultado do zelo missionário do clero, mas da firmeza com que poderes políticos, hierarquias sociais e comunidades locais censuravam e puniam quaisquer heterodoxias.

Nas sociedades modernas, secularizadas e pluralistas, a igreja não conta com a coacção política e social ainda aceite no Islão. Ora, a catequese, só por si, será sempre vulnerável a contraditórios e a confusões. Para se identificar com toda a sociedade, resta à igreja um meio: em vez de impor as suas doutrinas, acolher as atitudes da sociedade, o que, em geral, consistirá em perfilhar, reinterpretando-as em termos religiosos, as últimas inclinações da legislação estatal ou dos programas televisivos da manhã. Se os fiéis não vão a Roma, vai Roma até aos fiéis. O problema é que, por esse caminho, a igreja pode rapidamente deixar de representar a continuidade apostólica, para cair numa “espiritualidade” de supermercado, em que cada um escolhe o que, naquele dia, mais lhe convém.

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A pressão para fazer coincidir igreja e sociedade não vem só do clero e dos fiéis. Durante séculos, príncipes e comunidades jamais pensaram poder governar ou manter a coesão social sem a igreja. O cristianismo dava sentido à vida e ligava os seres humanos uns aos outros. Por isso, príncipes e comunidades tentaram frequentemente dominar a igreja, e quando a renegaram, foi para inventar outra, como os príncipes protestantes ou os revolucionários franceses no tempo de Robespierre. Essa relutância em renunciar à igreja persiste no actual Ocidente secularizado. Basta pensar no modo como toda a gente continua a ter opinião sobre a igreja católica. Mesmo agnósticos e ateus se comportam como acitvistas católicos imaginários, sempre a postos para dedicar mais um editorial às orientações do Vaticano. É como se todos sentissem que, para “ligar” a sociedade, não bastam a educação cívica e o número de contribuinte, e conviria talvez uma “religião” – mas uma “religião” (e é este o ponto) que não incomode ninguém nas suas opções e tendências.

Admito que para muitos fiéis a questão possa ser resolvida nos termos mesmos da “caridade” que manda perdoar e compreender. A tradição nunca o seria se, em certa medida, não fosse elástica. Mas até onde pode a igreja católica “progredir”, identificar-se com a actual sociedade, sem se diluir na banalidade da cultura moderna? Na igreja anglicana, o escrúpulo da modernização, por lá muito mais agudo, já produziu autoridades eclesiásticas cuja crença em Deus nem sempre parece firme. Talvez um dia a hierarquia católica tenha de escolher ser apenas uma parte, para não se perder no todo.