Com maior frequência do que seria desejável, temos vindo a ser confrontados com notícias de surtos de Covid-19 em lares. De facto, estas instituições, ao acolherem a população de maior risco, têm sido particularmente afetadas pela conjuntura da pandemia, não porque não tenham cuidados, mas porque inevitavelmente estão mais expostas.

Contudo, se há quem possa achar que este é um problema português, não poderia estar mais enganado. Na verdade, infelizmente, trata-se de uma realidade transversal, que afeta vários outros países, um pouco por toda a Europa. Aliás, um estudo da OMS revelou que metade das mortes europeias por Covid-19 foram em lares de idosos.

Neste âmbito, um inquérito da Expense Reduction Analysts – Healthcare Solutions junto de mais de 8 mil lares na Europa, incluindo em Portugal, mostrou que na origem desta tragédia que se abateu sobre instituições públicas e privadas ou de solidariedade social, fossem elas de maior ou menor dimensão, estiveram vários fatores relacionados com a escassez de recursos, a descoordenação do apoio das autoridades e a inevitável ansiedade que tal gerou, visto que os lares se sentiram entregues a si próprios na luta contra a pandemia.

As principais preocupações ficam, assim, evidentes e têm que ver com a segurança e bem-estar dos utentes, das famílias e dos cuidadores, com o aumento das despesas e, em alguns casos, com as taxas de ocupação.

No que diz respeito ao relacionamento com os utentes, as famílias e os cuidadores, talvez o eixo mais delicado de todos, as maiores dificuldades residem em adaptar as instalações para fazer a devida separação das pessoas, em implementar medidas de controlo da entrada e saída dos cuidadores e em explicar aos utentes, muitos deles já debilitados do ponto de vista cognitivo, o repentino afastamento das suas famílias.

No espetro económico e financeiro, a situação é gritante e deriva, por um lado, da existência de custos adicionais, nomeadamente com artigos de proteção pessoal, e, por outro, do aumento dos preços. A questão da inflação desdobra-se em dois cenários: o da efetiva escassez de muitos produtos no mercado e o da especulação causada por oportunismo temporário. Ora, nos lares há muitos consumos que têm baixo custo unitário e elevada regularidade de utilização, pelo que uma diferença de preços que individualmente não seria significativa, multiplicada tem um grande impacto. Naturalmente, este agravamento dramático das despesas resultou no sufoco de muitos lares, que se viram a braços com falta de liquidez, a somar à pressão social que já carregavam nos ombros.

Quando se fala em sustentabilidade, nos países mais ricos, estas instituições temem as camas vazias e a falta de utentes e contam com o Governo para garantir a ocupação, através de protocolos de cuidados continuados ou de apoio a pessoas carenciadas; em países como Portugal, onde a ocupação é, de forma geral, muito elevada, desde logo pela escassez destes equipamentos sociais, a apreensão está voltada para roturas de abastecimento associadas ao peso dos custos exacerbados de artigos essenciais – leia-se alimentação e higiene pessoal.

Traçado este retrato doloroso, neste momento há que centrar as atenções na vertente humana e, por conseguinte, em estancar o foco dos contágios através de uma reorganização interna. Um reajuste dos espaços para assegurar o distanciamento necessário e um esquema de rotação entre três equipas – uma que está no lar a cuidar dos utentes, outra que acabou de completar o seu turno e faz a sua vida normalmente e outra que entra em quarentena antes de tomar o lugar da que está no ativo -, seria o caminho mais eficaz para trazer ordem e regra.

No entanto, uma solução deste estilo acarreta, por inerência, mais custos, sobretudo com o reforço do pessoal. É aqui que o Estado pode e deve chegar-se à frente e assumir um papel de inquestionável importância que lhe pertence. Todo o apoio fará a diferença, especialmente quando posto lado a lado com os efeitos dos constantes rastreios e com as angustiantes taxas de mortalidade.

Perante a vulnerabilidade, a capacidade de reação é crítica e exige-se nada menos que uma resposta articulada, cabal e, acima de tudo, digna daquele que é o continente mais envelhecido do mundo.