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Há aqueles políticos que entram na vida política profissional com pouco mais do que a roupa que têm no corpo – para começarmos o texto com imagética pitoresca – e que lá para os cinquenta e picos anos se retiram da política profissional possuidores de casas na Quinta da Marinha e/ou na Quinta do Lago, gordas carteiras de investimentos, enfim, com o ar próspero de quem teve rendimentos mais generosos do que os relativamente modestos ordenados dos políticos. E há também – e igualmente curiosos – os políticos que saem (geralmente obrigados por derrotas) da política ou que por lá continuam sem que constituam magras poupanças ao alcance da classe média. Há quem os elogie; no entanto a mim deixam-me inquieta.

Vejamos o caso de Marcelo Rebelo de Sousa, saltitante entre a política e a sua atividade profissional fora da política, que, como bem nos lembraram quando MRS foi presidente do PSD, lhe trazia largos rendimentos que perdeu com estas funções. Estes largos rendimentos – vindos dos pareceres caros, da universidade, dos comentários… – levar-nos-iam a pensar que MRS acumulou já um simpático património. Ora há uns anos, no Conversas Improváveis com Marcelo Rebelo de Sousa e Ricardo Araújo Pereira, afirmou o político/celebridade mediática que antes da presente crise económica gastava o que ganhava, já havia avisado os filhos que não teriam herança e que apenas com a crise percebera a necessidade de mudar os hábitos.

Caros (e)leitores: uma pessoa de grandes rendimentos (pelo menos para o comum português) que esbanja tudo com a rapidez do filho pródigo não é o governante (ou presidente) de sonho de um país com crónicos problemas orçamentais. Confiamos que quem não cuida do património dos filhos seja cauteloso com a dívida pública que transmitimos às gerações seguintes?

Eu percebo Marcelo Rebelo de Sousa, também sou tendencialmente gastadora e consumista e não pertenço à estirpe de pessoas que tem mais prazer em receber (ou imprimir) o estrato bancário com valores volumosos do que, por exemplo, em comprar um sobretudo de mistura de lã virgem e caxemira. Mas até eu, que sou tendencialmente gastadora e consumista e, desconfio com bastante segurança, com rendimentos inferiores a Marcelo Rebelo de Sousa, alterei o meu padrão de consumo depois de nascerem os meus filhos. Se calhar até poupo menos agora (porque as despesas com bebés e crianças são estratosféricas), mas consumo muito mais criteriosamente. E se compro algo vultuoso, escolho um objeto que possa valorizar-se e fazer parte do património que deixo aos meus filhos em vez do tal sobretudo de caxemira.

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Outro caso: o inevitável José Sócrates. Que, como o próprio diz, só tem uma conta na CGD, sem poupanças e foi para Paris viver de um empréstimo e de ajudas da sua mãe. Esqueçamos por agora a parte de ir para Paris, talvez em crise de meia idade, numa espécie de viagem que as pessoas de vinte e poucos anos, quando ainda não têm responsabilidades na vida, fazem para se conhecerem a si próprias ou outras balelas semelhantes. Novamente: também percebo o conceito e conheço muitos casos de pais que ajudam financeiramente filhos adultos com mensalidades apreciáveis, pagamento de despesas de educação dos netos, ajudas ocasionais, o que seja. Mas queremos que um cinquentão que vive ociosamente um par de anos sustentado pela mãe e pelo crédito (e oh que metáfora do país que nos deixou) tenha possibilidade de tomar decisões sobre a nossa vida?

Por estes dias tivemos também o sovina Pedro Passos Coelho – que compra casa nos subúrbios, passa férias na Manta Rota, não dá presentes de Natal às filhas mais velhas – a informar-nos que não se recordava se havia ou não recebido 5000€ por mês durante uns anos do final da década de 1990. Entendamo-nos: extermina a imagem de poupadinho de Passos Coelho apresentar-se como alguém que não se recorda se recebeu pagamentos daquele valor – porque, convenhamos, são de difícil esquecimento.

Há uns anos, para averiguar se os candidatos a primeiro-ministro tinham algum conhecimento da vida real dos portugueses reais que se propunham governar, nas entrevistas televisivas perguntava-se se sabia o preço de um litro de leite. E os candidatos decoravam afincadamente estes preços na esperança de não serem vistos como uns diletantes elitistas sem noção do custo de vida. Que noção tem quem não sabe se recebia em cada mês mil contos a mais ou a menos?

Para distribuir democraticamente as minhas farpas, termino com o sebástico António Costa, que em entrevista ao Expresso se gabou de não ser sequer ‘sócio de uma tabacaria quanto mais de um banco’. Não nos admiremos, portanto, se o provável futuro primeiro-ministro for propenso a penalizar (com impostos, desde logo) aqueles que arriscam o seu capital para ganhar dinheiro. E nem verá contradição se, a seguir, der lições sobre empreendedorismo.