Escreve Luís Montenegro, no Expresso, que “o autoritarismo ideológico da extrema-esquerda com que o PS se concubinou deu à educação quatro anos de tempo perdido”, entre reformas não feitas e outras revertidas. Soa-lhe familiar? A mim, sim. A afirmação do ex-líder parlamentar do PSD é precisamente o tipo de acusação vazia que sempre preencheu o debate partidário sobre a educação. Por exemplo, não faltou quem identificasse um autoritarismo anti-democrático na ex-ministra da educação Maria de Lurdes Rodrigues (PS), nele vendo um bloqueio ao desenvolvimento do sistema educativo. Ou, por exemplo, não foram poucos os que garantiram que o ex-ministro Nuno Crato ameaçava, por radicalismo ideológico, a sobrevivência da escola pública. Ora, nem de propósito, foi após os mandatos destes dois ex-ministros que os desempenhos dos alunos portugueses mais melhoraram nas avaliações internacionais, certificando Portugal como um caso de sucesso quanto às reformas educativas no contexto da OCDE.

Ou seja, estas acusações politizadas de retrocessos dramáticos tendem a ter muito mais de errado do que de certo. Neste caso, não está em causa que o governo, na educação, tomou decisões erradas. É evidente que por vezes o fez e, em alguns casos, com repercussões que poderão ser profundas e graves.

Mas, balanços sectoriais à parte, o ponto que sobressai aqui é outro: o debate político caiu num ruído ensurdecedor. E já não há paciência para esta invasão do espaço público com tiradas vazias e catastrofistas sobre as nossas políticas públicas, e logo por parte dos principais responsáveis partidários – neste caso foi Luís Montenegro sobre educação, mas a prática estende-se aos vários partidos e às várias áreas da governação. Afinal, onde estão as críticas concretas a medidas específicas? Onde está o desenvolvimento de alternativas e onde estão as reformas estruturais construídas nos gabinetes de estudo? Onde estão, nos discursos partidários, os contributos dos peritos que enquadram as soluções políticas com evidências empíricas, seja de projectos-piloto ou de casos internacionais? Pouco ou nada disto existe no debate. Num momento em que tanta informação comparada está disponível, o discurso político continua repleto de sentenças ocas, ligadas às cores partidárias e desligadas de uma real preocupação com melhores políticas públicas.

Esse vazio é muito mais notório à direita do que à esquerda. Por várias razões. Primeiro, porque como se viu recentemente à volta da chamada “taxa Robles”, a esquerda confunde pensamento em políticas públicas com aumento de impostos – há sempre mais alguma coisa para taxar. Segundo, porque em diversos sectores, como é o caso da educação, a esquerda segue agendas corporativas e absorve-as no seu discurso, enquanto a direita fica entalada entre a reacção a essas agendas e o seu vazio reformista. Terceiro, porque as universidades, sobretudo as faculdades de ciências sociais, foram colonizadas pelos partidos à esquerda – que monopolizam o pensamento produzido nas áreas de estudo relevantes do Estado Social. O maior problema da direita portuguesa não é Rui Rio, cuja estratégia oscila entre o insólito e o populismo. O maior problema da direita é que o seu vazio de pensamento e de visão estratégica está exposto – e é muitíssimo mais evidente do que o da esquerda (que também existe).