Em Agosto referi-me a Mário Centeno e Manuel Caldeira Cabral, hoje respectivamente ministro das Finanças e ministro da Economia, como “economistas de créditos firmados”. Essa referência motivou – e continua a motivar – alguns comentários indignados e acusações variadas, mas mantenho o que escrevi na altura: os CVs académicos de ambos são perfeitamente respeitáveis no contexto das ciências sociais em Portugal e, pelo seu trajecto profissional, não destoariam num qualquer executivo liderado pelo PSD.

Mas ter um CV e um trajecto profissional em linha com o habitual em Portugal para o exercício de funções governativas não garante, por si só, sucesso nem durabilidade no desempenho dessas mesmas funções. Vale a pena a este propósito recordar os casos de Daniel Bessa – como ministro da Economia – e de Luís Campos e Cunha – como ministro das Finanças. Ambos tinham também credenciais académicas e chegaram até ao Governo com maior peso político do que Centeno e Caldeira Cabral, mas nem por isso as suas passagens pelo poder foram bem sucedidas.

O caso de Mário Centeno – pela centralidade da pasta das Finanças e pelos compromissos externos a que Portugal se encontra vinculado – é particularmente difícil. Mais ainda num contexto político em que o PS governa sustentado pela esquerda radical. Se a função de Centeno já seria complexa em condições políticas normais, ela torna-se um desafio de equilibrismo virtualmente impossível com a extinção do “arco da governação” que António Costa achou por bem executar para chegar ao poder.

As posições assumidas – e reafirmadas – por bloquistas e comunistas em matéria de finanças públicas sugerem que Centeno corre o risco de ser um mero adorno decorativo para tentar atribuir alguma respeitabilidade à linha de orientação política defendida pela extrema-esquerda e pela ala mais radical do PS. Se tal não se confirmar, e Centeno provar ser mais do que uma figura decorativa, o Estado português poderá talvez preservar a sua credibilidade externa, mas a ruptura com BE e PCP será inevitável.

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A interpelação do deputado do PSD Miguel Morgado ao ministro das Finanças Mário Centeno, assim como as respostas dadas por este último, foram a este respeito particularmente reveladoras. Ao recordar publicações académicas recentes nas quais Centeno alertava para os riscos associados a aumentos do salário mínimo, o deputado do PSD colocou o dedo na ferida. A credibilidade científica e profissional de Centeno nos meios académicos nacionais resulta de um trabalho e de um pensamento que são em larga medida incompatíveis com o receituário que o Governo de que faz parte ameaça aplicar ao país.

O facto de praticamente todo o discurso político de Centeno se centrar em medidas de curto prazo – abandonando preocupações de natureza estrutural com a competitividade da economia portuguesa – é especialmente preocupante. Daí que quando o ministro Mário Centeno respondeu à interpelação do deputado Miguel Morgado dizendo que não podemos transpor conclusões de artigos científicos para a legislação nacional porque tal tentativa seria “um passo para o desastre”, Centeno está ele próprio a reconhecer implicitamente a impossibilidade do exercício de equilibrismo no qual se deixou envolver.

O académico Mário Centeno não deixaria certamente de olhar com preocupação para as declarações do ministro Mário Centeno. E o pior é que o país está mesmo a poucos passos de um novo desastre.

Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa