A maior parte das pessoas acha que a justiça é uma forma de igualdade; e acha por isso que uma sociedade mais justa é uma sociedade em que as pessoas são mais iguais. Há com certeza grandes vantagens em numa sociedade decente não se distinguir entre aqueles que podem ir para a prisão e aqueles que nunca podem ir para a prisão; e entre aqueles que podem comprar certas coisas (se tiverem dinheiro) e aqueles que não podem comprar essas coisas (apesar de terem dinheiro). Não é no entanto claro que, asseguradas essas regras de decência, se tenha eliminado a injustiça.

Uma parte do problema é o tom com que geralmente se fala de igualdade. A igualdade não é um atributo neutro; é antes qualquer coisa que é normalmente invocado para deplorar acções alheias. Um defeito muito importante da democracia, embora um defeito que só pode ser caracterizado numa democracia, é o modo como se deplora o facto de as outras pessoas serem diferentes de nós. Uma versão conhecida desse defeito é o slogan rancoroso e frívolo ‘Todos diferentes, todos iguais’. O slogan sugere que nenhuma diferença faz diferença. Confunde a asserção (verdadeira) de que há maneiras imorais de tratar pessoas com a generalização (falsa) de que todas pessoas têm de ser tratadas da mesma maneira.

De facto, ‘somos todos iguais’ é usado pela maior parte das pessoas como sinónimo de ‘ninguém é diferente de mim’.  Por detrás da maior parte dos apelos à igualdade esconde-se a ideia de que eu sou a medida de todas as coisas. Existe assim uma relação próxima entre achar que todos somos iguais e achar que todos são como eu; o universalismo é o irmão mais novo do relativismo; e ambos são filhos do provincianismo.

A ideia de admirar pessoas diferentes de nós, e de sacrificar um pouco de igualdade à justiça, é uma ideia com poucos adeptos. Veja-se por exemplo a falta de paciência geral para aquelas pessoas que em circunstâncias que nós conhecemos fariam e fazem coisas completamente diferentes de nós;  as pessoas que não dizem o que nós dizemos, não pensam o que nós pensamos, e não cumprem as suas obrigações como nós as cumprimos: a falta de paciência para as pessoas que não são completamente como as outras pessoas.

É concebível que numa fase menos perfeita da evolução política as pessoas fossem menos iguais e houvesse possibilidades de justiça que entretanto desapareceram. Admiramos alguns excêntricos dessas eras desiguais, santos, músicos e estrategos: mas admiramo-los com alívio, porque sabemos que, caso ressuscitassem, não lhes seria possível fazer as coisas por que os celebramos agora. O nosso alívio vem de saber que os génios do passado seriam os idiotas do presente, isto é, de saber que não seriam hoje autorizados a ser mais que nós.