Há uns dias, a Economist referenciava uma teoria interessante que tinha sido levantada na Nature, há coisa de 12 anos, por um ecologista e matemático da Universidade do Connecticut, Peter Turchin, sobre o estudo da forma como as sociedades sofriam as crises/revoluções, a qual denominava de “Cliodinâmica” (Clio, deusa da memória e musa da História). Segundo aquela, começava a fazer sentido que se olhasse para a cliodinâmica com alguma atenção, face aos habitualmente designados fenómenos populistas, como Trump, o Brexit ou o crescimento das forças de extrema-direita no espaço europeu. Segundo Turchin, existem ciclos de instabilidade política gerados, não pela pobreza ou pelas dificuldades dos mais fracos, mas devido ao excesso das elites. Por elite devemos entender aqueles que de alguma forma detêm mais capital que a generalidade das pessoas, como propriedades ou educação.

Na verdade, a “descoberta” de Turchin não é novidade, tendo sido já bem entendida por personagens bem mais marcantes da história do que ele, como Salazar, Estaline, Mao, Kim ou Pol Pot. Qualquer filho de barregã no passado – e no presente – sabia que educar o povo funcionaria, mais cedo ou mais tarde, contra si. Deveria, por isso, ter a quantidade de pessoas de elite adequada para ser enquadrada na sociedade em termos económico-políticos e o resto devia ser passado a bala. Com a exceção do ditador português que, procurando ser pio e tendo uma base já muito pequena, pretendia que o seu povo fosse feliz na ignorância, limitando o acesso à educação, sem necessidade de nódoas de sangue que custam a sair. A estabilidade política é, assim, não produto do descontentamento popular, mas sim do tamanho da fatia do bolo destinada às elites – hipótese que, aliás, acerta na mouche no caso lusitano e no caso da Roma de Caio Júlio César, libertando-nos de verificar todos os outros casos pelo meio.

Associei esta ideia numa conversa internética com um médico sobre as medidas de combate à epidemia e a forma algo estranha como algo que deveria ser um desígnio comum se torna, pelo menos nos contactos que me rodeiam, em discussão agressiva e militante. Tal leva-me a cair no atrevimento de corrigir um paper da Nature: a instabilidade política não deriva do excesso das elites, deriva do excesso das pessoas que se julgam elite. A começar por este que vos escreve a corrigir um paper da Nature.

A quantidade de pessoas que desenha exponenciais, que faz juízos de valor sobre medidas de natureza médica, que analisa papers retirados de revistas médicas ou científicas sem fazer a mais pequena ideia da forma como evolui o processo científico, como se um paper científico tivesse saído de uma revista de Economia ou Sociologia, é verdadeiramente impressionante. Fenómeno, aliás, já observado na discussão das alterações climáticas, onde uma enorme quantidade de “geofísicos” surgiu por debaixo de cada pedra que se pontapeava na rua, versados nas mais recentes “descobertas” feitas por inquestionáveis nomes da ciência moderna, como se o conhecimento científico acontecesse quando um qualquer curioso seleciona os papers que se adequam melhor à sua “sustentada” opinião. Como se fosse o Record, o Jogo ou a Bola de segunda-feira. Aliás, quando um nome “daqueles” afirma algo que nos agrada, e a restante comunidade científica não acompanha o dito nome, é porque a comunidade científica está ao serviço de interesses obscuros que se vão dividindo entre sendo os do comunismo internacionalista chinês ou do capitalismo imperialista abutre do Sr. Soros ou do casal Gates.

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A verdade é que a generalização do acesso das pessoas à universidade em temas que não são STEM (science, technology, engineering and math), é uma coisa positiva para a sociedade em geral. Positiva, no sentido em que é melhor que nada. Mas é menos positivo que não se entenda que não é a mesma coisa. Ao ponto de termos médicos, neste caso da pandemia, a ter de estar a explicar coisas que serão sempre incompreensíveis para quem não foi formado em assuntos de ciência. É natural que os médicos não concordem com tudo, o que não é natural é que os não médicos se considerem aptos para participar na discussão. É que se os dois médicos têm presentes os temas que não estão a ser discutidos – mas estão presentes por serem médicos -, isso não aconteceria comigo se fosse participar da discussão. Ou como se ciência fosse passível de ser discutida como opinião, como são temas de Economia, Antropologia ou Direito. E a coisa é agravada pelo facto de um médico ser também um engenheiro. Isto é, para além das questões relevantes em termos científicos, há a questão da aplicação concreta dessa ciência: a pessoas concretas, dentro de um sistema de serviço público concreto, num instante do tempo concreto.

Apelo, por isso, aos meus conterrâneos, que confiem em quem gastaram milhares de euros a formar para estarem aptos em ocasiões como esta. Eles sabem os números melhor que vocês, acreditem que os números de mortalidade que vocês veem não são novidade para eles e que vocês não descobriram nada de fantástico quando analisam a mortalidade desta doença, ou quando desenham exponenciais ou sacam um caso da Patagónia do Norte. Acreditem, “eles” sabem disso tudo há meses. E vocês não são elite. Só julgam que são.

Não estou com isto a dizer que todos deveríamos ser médicos, engenheiros ou, tocando o divino, físicos teóricos. Mas como também tenho direito à minha presunção elitista, deixem-me dar o meu contributo para a instabilidade política. Não tendo eu que decidir nada sobre os caminhos do Etado, será fácil para mim atrever-me a entrar no Governo de um Estado, argumentando que este é dominado por pessoas formadas em Direito, formação que perde a validade na fronteira do Caia, garantindo para mim mesmo um momento Cneu Pompeu Magno.

Armando-me em elite, vou dizer que mais importante que fazer muitas leis ou regras de convivência entre nós, é que tenhamos poucas, mas que sejam coerentes. Não se pode pedir que sejamos todos solidários perante o desígnio de reduzir contacto, quando eu prescindo do meu contacto para que os outros andem à molhada para ver bólides de Fórmula 1, o andor de Nossa Senhora de Fátima ou as homilias de Jerónimo e Ventura. Não sendo eu médico ou bioquímico, diria que é perfeitamente equivalente para o vírus se o hospedeiro é acelera, católico, comunista ou, pior, tudo junto. Não me peçam para não ver o Benfica para deixar os estrangeiros ver a Mercedes. Reparem, que nem me parece que seja algo assim tão complicado, aproveitando que me estou a armar em bom. É só dizer que aquilo que escrevem é válido para todos. Isto é tão simples que alguém deveria ter-se lembrado disto quando escreveu aquela coisa da Constituição, ou alguém deveria ser responsável por defendê-lo.

Mas agora, assumindo-me como o melhor deles todos, queria só recordar aquilo que os médicos me disseram no início e que não me parece que tenha perdido a validade. Não interessa que isto mate mais ou menos que a gripe, até pode matar tanto como uma borbulha. O que interessa é que este vírus faz os doentes ocupar três semanas de cama de hospital e isso é uma não-linearidade que afeta o nosso raciocínio. Se deixarmos muitos doentes ocupar as camas tês semanas, deixa de haver camas. E não interessa contar as camas, porque as camas têm médicos e enfermeiros ao lado que, curiosamente, também são infetados pelo vírus, sendo que podemos ter milhares de camas livres, mas mesmo assim pessoas a morrer, porque os médicos estão todos infetados. E não vale a pena contar os médicos que não estão infetados porque estes não são todos “iguais”. E…. já entendeu?

Sim, nós não percebemos nada disto, façamos o que nos dizem porque não, nós não somos elite! O que se passa na pandemia é ciência e engenharia da mais complicada, da que mata ou faz viver pessoas. Não é uma questão de opinião, correntes de pensamento, escolas racionais ou aquele livro que alguém escreveu há 200 anos e que, para nós, é tão bom como o outro que escreveram há 2000 anos. Deixemos a revolução para aquilo que não tem base científica.