É claro que sabe dos idealistas que acreditavam que iam mudar o mundo. Eu fui sempre do outro tipo: dos que acreditavam que iam conseguir que o mundo não mudasse. Custa a crer que o Facebook faça 15 anos quando só se rendeu a ele há quatro. Mas o termo é esse e descreve uma condição sem recurso possível: rendição. Não no sentido do arrebatamento romântico de alguém que se abandona a, mas no literal – de quem abandona. Ponto. Desiste. Baixa os braços e diz: façam o que quiserem.

Foram muitos anos a ser o Robinson Crusoe das novas tecnologias. Muita discussão. Muito cansaço intelectual de ter de estar sempre a explicar, dos amigos à senhora do café, porque é que não se tinha Facebook. E pior: é que o mundo tinha efectivamente mudado. Melhor dizendo ainda: tinha SE mudado. Para onde? Para dentro do Facebook.

Já quase ninguém telefonava, quase ninguém escrevia um sms, quase ninguém mandava um email. Cá fora, onde nós queríamos ficar, onde achávamos que o mundo continuaria a ser o mesmo, era onde o mundo mais tinha mudado: estava muito mais silencioso, muito mais vazio. A conversa tinha passado para a outra sala. Agora, vivíamos num planeta onde a senhora da pastelaria fazia gosto em nos pôr a par das últimas novidades na vida do nosso irmão.

Não tenho inveja ou admiração por quem resistiu mais longamente ou resiste ainda ao Facebook. Tirando algum tipo de carmelita descalça em isolamento, parece-me, verdadeiramente, que estão a perder os textos, as imagens, as reflexões, as conversas interessantes que, antes de haver Facebook, aconteciam por todo o lado e que, depois de haver Facebook, deixaram de acontecer noutro lado porque passaram a acontecer, em grande medida, ali. A nossa luta foi bonita, mas perdemos. Com estrondo.

Filosoficamente, continuo a ser tão contra aquilo que o Facebook representa como no primeiro dia: a exposição da vida privada, a superficialidade do pensamento, o fim da crítica, do longo, do profundo, do difícil, a ditadura do like, o agir-se para e segundo as aparências, o profanar da palavra “amigo”. Não tenho dúvidas de que deveria ser limitado a maiores de idade ou, enfim, à idade em que se entenda que as pessoas já não são susceptíveis de fazer depender a possibilidade de serem felizes do número de likes, adoros e uaus recolhidos pela sua nova foto de perfil. E quem diz Facebook, diz o arquétipo. Diz, evidentemente, toda e qualquer rede social.

Todavia, reconheço que estava clamorosamente errado em duas ou três coisas. A saber:

Que o Facebook criava uma zona intermédia onde podíamos acompanhar todas as pessoas interessantes que apenas conhecíamos e de quem não éramos amigos por falta de oportunidade;

Que nos permitia levar o nosso trabalho a passar debaixo do nariz das pessoas a quem o queríamos mostrar e que, de outro modo, nunca parariam para nos ir ler ou ver ou ouvir de propósito pela primeira vez;

Que, efectivamente, nos podia fazer recuperar pessoas de vidas passadas. Não as que deixámos para trás porque só levámos as que então nos interessavam, mas aquelas em que se tinham tornado (porque, sim, tal como o mundo muda, um reaccionário descobre em espanto que também as pessoas o podem fazer);

15 anos, dizem agora. 15 anos de Facebook. Mas, na verdade, há 15 anos ainda trocava cartas com vários amigos. Com a profundidade a que a demora do gesto convidava. Tinha talvez a minha primeira instalação de internet ADSL. Voltara há uns meses a ter televisão, depois de quatro anos e meio de desintoxicação, a viver apenas de rádio, discos, livros e jornais. Há 15 anos, estavam os blogues no auge em Portugal, com as fracturas esquerda/direita e o surgimento de algumas das primeiras estrelas literárias e humorísticas que já não precisavam que os media tradicionais lhes dessem uma oportunidade.

O mundo agora não é melhor nem pior. Às vezes, parece mais cheio e que nos acompanhamos mais uns aos outros, mesmo quando estamos em lados sumptuosamente distantes do globo – e isso é extraordinário. Outras, parece muito mais armadilhado e disparado em direcção a passar ao lado do que realmente importa – e isso é terrível. O mundo agora é ainda um sítio onde já não há aquele momento M em que tínhamos de encher o peito e dar o mortal encarpado de, com o ar mais nonchalant, pedir o número de telefone à rapariga. E isso facilita muito a vida. E tira alguma graça.

Mas há uma coisa que todos devemos agradecer a Mark Zuckerberg: a glória daquelas caixas de comentários alucinadas onde, às vezes, está toda a nossa gente à conversa, mesmo quando não se conhece realmente entre ela de parte alguma. A nossa mãe, o nosso chefe, a senhora da pastelaria, a rapariga, o colega da primária, o tio da América, o amigo doutorado, o que ficou nas obras, a punk e a carmelita descalça em dia de folga – toda a gente que nunca conseguiremos juntar à mesma mesa ou para a mesma fotografia e que, às vezes, naquele instante, consegue ser uma das mais estranhas e poéticas celebrações da nossa vida. Tudo a discutir o palpite político que acabámos de mandar, ou o bitaite poético, a fotografia armada em sensível, o instante de comemoração de uma qualquer pequena vitória.

Nesses momentos, esses breves e raros momentos, o Facebook dá qualquer coisa à vida.

Alexandre Borges é escritor e guionista. Assinou os documentários “A Arte no Tempo da Sida” e “O Capitão Desconhecido”. É autor do romance “Todas as Viúvas de Lisboa” (Quetzal).