“A nossa vida é tão chata e ficamos a pensar
Se merece mesmo a pena nós andarmos a penar (..)” (1)

Há dois dias, um amigo, de esquerda, disse-me: “Lá no CDS têm de pôr ordem na casa, porque é preciso conter o Ventura”.

Nem respondi, porque não queria discutir. É que a esquerda ainda não percebeu que ela – a esquerda – é a responsável pelo aparecimento dos charlatões desta vida.

Durante anos a direita, nomeadamente o CDS, fez o seu trabalho cumprindo as regras da democracia (e do decoro). Qual era o epíteto com que a esquerda nos mimoseava? Fascistas! Reaccionários!

Já nem falo da ignorância que é chamar esses nomes, desconhecendo a história e quem foram, de facto, os fascistas e reaccionários. Falo da profunda estupidez dessa verborreia que faz com que – agora – quem até o pode ser, passe de fininho, pois já ninguém liga ao que os histéricos das esquerdas chamam a quem quer que seja.

Jerónimos e Mortáguas já perceberam a diferença? Já vislumbram as diferenças? Ou a demagogia vai continuar e agora uns serão muito fascistas e outros menos, mas todos fascistas?

Durante anos o PS alinhou com esta gente: velhos gagás saudosistas da URSS (esses sim reaccionários) a que se juntaram ex-bombistas, ex-assassinos, revolucionários de pacotilha, operários da J. Pimenta e derrotados avulsos do 25 de Novembro.

Esse alinhamento – que benevolamente se pode aceitar como táctica para conter os radicais – levou a tristes fenómenos: crescimento do Bloco, aparecimento do PAN, adiamento da morte do PC, Joacine e Ventura.

Anos a quererem educar o povo em como falar, comer, vestir, e mais sei lá o quê, chateia. Imporem que não podemos usar a colher de pau, ou o tacho de barro, enerva. Pararem o país porque existem 17 pessoas que não se sentem à vontade numa qualquer casa de banho, irrita. Não aceitarem as derrotas democráticas do aborto e da eutanásia e usarem todos os meios para levarem a sua avante, assusta. Tomarem de assalto as redações dos media deste país, asfixia.

Depois, tipo virgem ofendida, querem que o CDS se fortaleça para conter um tipo que, como tem só 30 segundos para falar, diz sempre qualquer coisa que choque. Agora? Depois de terem chateado, irritado e asfixiado a direita?

Não sei se existe extrema-direita em Portugal, sei que o CDS não é nem nunca o foi. Mas se a dita existisse não era pior que a outra extrema – essa sim existente – que, em termos históricos, causou no mínimo tantos prejuízos à humanidade como a sua Némesis.

O que sei é que para o PS o erro é um fado, uma constante. Se antes se deitou com a “grupeta” acima descrita, agora parece que lhe interessa o esvaziar da direita tradicional e insuflar um “monstro” que una todos na sua antítese. Com o PS na liderança, é claro.

Mais uma vez é o PS a ser inconsciente, aliás profundamente. Tudo vale para a manutenção do poder. Vão arrepender-se, e esse vai ser outro fado.

E, por onde anda a direita deste país? Vejo o CDS e o seu líder sozinhos, a lutar contra a secura de espaço nos media, a tentar tornear esse facto através das redes sociais. Sem orçamento e no meio de uma pandemia. Mas esses factores não interessam aos nossos pundits de trazer por casa, aos amigos do Príncipe Real – que não do País Real. Xicão – petit nom que usam para chatear – é alvo a abater. Com esse abate levam o CDS de arrasto? Não interessa. Assim como a ninguém interessa o escândalo que é a cobertura jornalística, os comentadores, os programas de “opinião”.

“Eu escuto as palavras mas não vejo as acções
Temos muitas teorias, mas não temos soluções (..)”
(2)

Ainda tive esperança no 5.7, mas está a ser uma desilusão. Onde está a produção de pensamento? Um paper que seja? O que vejo é o seu putativo líder – Miguel Morgado – sempre activo no Twitter a disparar a tudo o que mexe, tipo Lucky Luke, mais rápido que a própria sombra. Pode ser da minha idade, mas quem actua desta forma só se descredibiliza. É que, além da idade que já tem, Morgado vale bem mais do que umas graçolas juvenis.

Mas, bem pior do que os “tuites”, é agora o 5.7, ou pelo menos o seu putativo líder, meter-se na vida na vida interna dos partidos. Vejamos: primeiro veio dar apoio a uma candidatura – para todos os efeitos inexistente – de Adolfo Mesquita Nunes que, como se sabe, é um crítico da actual direcção do seu partido. Não contente, o mesmo fundador do 5.7 junta-se a mais dois derrotados do congresso do CDS e a um derrotado do congresso do PSD (além dele próprio) num debate para discutir o (des) confinamento da direita em Portugal.

É um fado bem português, as boas ideias perderem-se no folhetim das amizades, dos amores e desamores.

“Depois bebemos um copo de aguardente
E a vida parece melhor
Somos da terra e do vinho, temos falta de carinho
E o futuro ainda pior (..)” (3)

(1,2,3 excertos do Fado Somos do Mar e do Vinho de Ricardo Ribeiro.)