Não se pode deixar de saudar a resolução do Parlamento Europeu que coloca nazismo e comunismo em pé de igualdade, mas é preciso não limitar essa conclusão apenas à Alemanha Nazi e à União Soviética e fazer com que ela se reflicta no ensino da História nas escolas e universidades.

A condenação contou com 535 votos a favor, 66 contra e 52 abstenções, prova de que existe, pelo menos entre os deputados europeus, coragem para chamar “os bois pelos nomes”, sem rodeios.

A aprovação deste importante documento só foi possível graças ao facto de no Parlamento Europeu terem assento representantes de países do Leste da Europa, vítimas tanto do nazismo como do comunismo. Até ao fim da URSS, e mesmo ainda hoje em alguns círculos intelectuais e universitários portugueses e europeus ocidentais, constituía um autêntico sacrilégio pôr um sinal de igualdade entre os dois sistemas mais brutais do século XX.

Esta resolução cria uma oportunidade única para aprofundar o estudo desta matéria e constatar que, na prática, esses regimes têm ainda menos diferenças do que alguns consideram.

Não há praticamente diferença alguma nos meios e alvos de repressão. É errado pensar que o goulag soviético foi utlizado apenas para punir e eliminar dissidentes políticos, pois por lá passaram não só prisioneiros dessa categoria. Por exemplo, por lá passaram também pessoas, incluindo menores, que apanhavam nos campos cereais para não morrerem de fome (a lei estalinista das sete espigas), que pertenciam a povos “desleais” ao regime comunista: chechenos, inguches, tártaros da Crimeia, etc.  Além do mais, é sabido que muitos dos soviéticos que foram parar ao goulag sabiam bem o que era a dissidência política ao regime de Estaline, tomavam todas as medidas de precaução para não serem apanhadas pela máquina repressiva, mas esta exigia novas e novas vítimas: monárquicos, socialistas, liberais, sacerdotes, trotskistas, comunistas de direita, comunistas de esquerda, homossexuais, etc.

Isto é mais uma prova de que os campos de concentração soviéticos eram utilizados como fonte de mão de obra gratuita para os grandes planos estalinistas. O mesmo faziam  os nazis que utilizavam também judeus, ciganos, etc. nos trabalhos forçados antes de mandarem para as câmaras de gás. A intensificação do extermínio nos campos de concentração germânicos ocorre com a aproximação da derrota da Alemanha nazi.

Não se pode também deixar de assinalar que o Parlamento Europeu não fala concretamente na sua resolução de regimes de extrema-direita europeus como os de Mussolini, Franco, Salazar, etc. Isto seria importante para frisar que na Europa não deve haver lugar para qualquer extremismo de direita.

O mesmo se pode dizer em relação à extrema-esquerda, onde se deve condenar não só o estalinismo, mas também o leninismo, o trotskismo ou o maoismo.

Por isso, é necessário entender a posição dos países da Europa do Leste que proibiram partidos comunistas, tal como entendemos e achamos bem que em Portugal tenha sido proibida a ideologia fascista em 1974.

Faço aqui um parêntesis para sublinhar que não sou defensor da proibição de partidos de extrema-esquerda e de extrema-direita em Portugal, mas a sociedade deve estar atenta às movimentações dessas correntes ideológicas, pois algumas tentam enganar com a sua fachada “light”, sendo o Bloco de Esquerda o melhor exemplo.

Foi precisamente com este objectivo que me lancei na escrita do meu último livro “Os Blumthal” que, com base em documentos e testemunhos reais, aborda o tema da fortíssima semelhança dos dois regimes. Arrisco-me a dizer que para as vítimas era indiferente a cor política dos carrascos.

Agora é necessário transpor a decisão do Parlamento Europeu para o ensino secundário, pois ela pode ser uma útil “vacina” para as gerações futuras, e arejar também o ensino superior, onde os ideólogos de extrema-esquerda têm fortes posições.

O Parlamento Europeu, na sua resolução, chamou a atenção para o facto de o Kremlin estar a rever a história a seu bel-prazer para justificar a política autocrática e despótica tanto no campo interno como externo. Além disso, utiliza meios inadmissíveis como a falta de acesso quase total aos arquivos soviéticos. Só publica o que lhe interessa e quando lhe interessa. E se esconde alguma coisa, por alguma razão será. Certamente que não será por questões de segurança nacional quando se trata de documentos elaborados antes ou durante a Segunda Guerra Mundial.