A Empregada foi a primeira a reparar nele. Estava a tirar a loiça da máquina, quando pegou num garfo que nunca tinha visto. Não era um garfo com os outros, era esquisito. Mais escuro, desengonçado, parecia velho. Tinha umas amolgadelas no cabo e uma das pontas retorcida. A Empregada já trabalhava lá em casa há tempo suficiente para saber que não devia questionar as novidades que lhe apareciam na cozinha. Um dia, no início, fizera uma piada com o espiralizador que só foi usado uma vez, antes de ser encaixotado e arrumado na despensa, e a Patroa fulminara-a com um olhar diabólico – que podia ser de ódio, mas, em bom rigor, também podia dever-se ao défice vitamínico da dieta das cores que a Patroa andava a seguir. As dietas (vegan, do paleolítico, do jejum intermitente, das comidas começadas por F) eram outras parvoíces de cozinha que, juntamente com a máquina de sumos, perdão, o extractor de sumos, o detergente biológico orgânico, o leite de soja light, as tábuas de madeira feitas à mão que não podiam ser lavadas, e tantas outras modas, a Empregada aprendera a ignorar. O garfo bizarro devia ser só mais uma. Encolheu os ombros, arrumou-o com os outros garfos na gaveta dos talheres e não pensou mais nisso. Essa decisão irrefletida mudou a vida daquele garfo. Mal se fechou a gaveta, começou o pesadelo.

– Quem és tu? – perguntaram os outros garfos, incomodados com o estranho que, claramente, não era um deles. Tanto, que, com aquela anatomia, não encaixava na conchinha em que os garfos se arrumavam no compartimento.

– Não sei – respondeu o garfo, que não sabia mesmo. Não sabia quem era, nem de onde vinha, nem onde estava, nem como é que lá tinha ido parar. O que, para a coerência interna da narrativa, não faz sentido, mas dá jeito à história. Só se estivesse com amnésia. É isso! Tratava-se de amnésia. O garfo nunca tinha ido à máquina, só era lavado à mão, de maneira que aquelas 2h15 minutos com água a 70° tinham-no traumatizado e agora não se lembrava de nada.

– És feio – continuaram os outros garfos.

– Chega para lá, pá. Esses enfeites que tens no cabo estão-me a fazer cócegas.

– Ó meninas, reparem neste deformado que puseram aqui! – E as colheres vieram ver. Depois veio a faca Ginsu, o garfo de trinchar, um dos salazares, a pinça da salada, enfim, todo o talher que era talher veio fazer pouco. Nesse dia, houve risota à custa do garfo.

Os outros dias não foram melhores. Ao fim de uma semana, foi expulso da cuvete dos garfos no tabuleiro para talheres, e viu-se relegado para o fundo da gaveta, onde arrumavam os outros marginais. Ficou ali, ao molho, entre o cortador de pizzas rombo e deprimido, as colheres de plástico desirmanadas e neuróticas, o saca-rolhas sem ponta e a cheirar a vinho, uma palhinha de metal esquizofrénica e todo o material de cozinha que parecia só estar ali por não se saber em que caixote do lixo se podiam depositar para reciclagem.

O pior eram as manhãs, quando os outros talheres voltavam da máquina, depois de terem saído para jantar na noite anterior. Vinham brilhantes e cheios de histórias sobre as comidas que tinham transportado, fosse o esparguete que se enrolava à volta dos dentes, fosse o bife cheio de nervos que a cooperação garfo/faca soubera cortar, enfim. O garfo sentia falta da acção. Não que passasse o dia fechado. Pelo contrário. A dada altura, as Pessoas descobriram-no. Só que foi como ferramenta. Tudo começou quando o Pai não encontrava o abre-latas e usou o garfo para abrir a embalagem de comida do cão (e também para a retirar lá de dentro, blhéc). O Pai ficou agradavelmente surpreendido com a sua robustez e passou a convocá-lo para as missões mais estranhas. E humilhantes. Desentupir o lava-loiça, limpar as unhas, palitar os dentes ou servir de antena a um transístor velho, foram só algumas delas. Depois, veio o resto da Família. A Filha do Meio usava-o para fazer as riscas nas bolachas, antes de irem ao forno. O Filho Mais Velho confiava nele para abrir aquele mini-compartimento do iPhone em que se enfia o cartão SIM. A Mãe usava-o para bater ovos ou para esmigalhar a banana do Bebé. Já era alguma coisa, mas não chegava. O garfo queria ir à mesa. E, tirando aquela vez em que o usaram para fazer de calço, nunca foi à mesa. O mais próximo que esteve disso foi o dia em que a Mãe quis apresentar o Bebé aos talheres. Ser um garfo pequeno, mas com algum peso, tornaram-no no companheiro ideal do Bebé, que não conseguia manusear um garfo grande, mas também ainda não tinha sensibilidade para um garfo leve demais. E foi assim que, ao fim de quase um ano, o garfo participou numa, digamos, refeição. Quando acabou, estava desolado. Entregara mais peixe cozido com batata cozida ao chão do que à boca do Bebé. Sentia-se um fracasso. Não percebia, por isso, a alegria esfuziante da Mãe, que se fartava de fotografar os artistas. Nessa noite, os outros talheres gozaram ainda mais do que era costume. Afinal, nem para alimentar bebés servia. Não era um garfo digno do nome. Era um garfinho. Um garfinho insignificante. Um garfinho feio.

O Garfinho Feio não foi o único a ser vítima de bullying. A Mãe também estava na berlinda, pois a Avó telefonou-lhe.

– Vi a fotografia do meu neto no Instagram, #obebéjácomesozinho.

– Viste? Tão querido!

– Hum, hum. Aquele garfo da foto é meu.

– Como assim, mãe?

– É meu. É cá de casa. Deve ter ido aí parar dentro de um dos tupperwares que costumas levar com comida. E que ainda não devolveste.

– Outra vez a conversa dos tupperwares? Vou já procurá-lo e amanhã está aí, juntamente com a porcaria do garfo.

– Não é preciso. A Consoada não é aí em casa? Vais precisar das minhas coisas. Quando voltarem, volta tudo.

Passados três dias, os talheres acordaram com um alvoroço. Foram todos retirados da gaveta, para darem espaço a um grupo de visitantes ilustres que vinham ocupar os seus lugares por uma noite. Na bancada da cozinha foi pousada uma mala distinta, de pele, com fechos prateados. Lá dentro, saiu em procissão um nobre faqueiro de prata. Primeiro, uma magnífica concha da sopa. Depois, uma estupenda colher de molheira. A seguir, elegantes facas da manteiga. Um a um, talheres de porte aristocrático foram saindo, sob o olhar embasbacado dos outros utensílios. Quando foi a vez dos garfos, a cozinha parou: eram iguais ao Garfinho Feio! Então era isso: o Garfinho Feio era, afinal, um garfo fidalgo de um serviço de prata de 386 peças. Não era deformado, era valioso. A Empregada foi buscá-lo, poliu-o respeitosamente com o bafo, e juntou-o à sua família.

– Que bom encontrar-vos! Finalmente, vou poder dormir em conchinha com os meus semelhantes.

O resto do faqueiro desatou a rir.

– O que foi? O que é que eu disse? – o Garfinho Feio tremeu. Será que também ia ser gozado por estes?

– Nada. É que “dormir em conchinha” é tão classe média. Isto não é o “Feios, porcos e maus”.

– Que é isso? Não conheço.

– É natural, é cinema europeu. Nesta casa não se vê. Nós não dormimos encaixados, como selvagens. No nosso faqueiro, cada um tem o seu nicho, feito à medida e forrado a veludo. Julgas que somos do IKEA, como estes parolos com quem partilhaste a – peço desculpa pelo palavrão – gaveta?

O Garfinho Feio chorou. Depois de um ano fora de casa, tinha regressado para junto dos seus. Também eram desagradáveis, mas ao menos não eram desagradáveis com ele. Entretanto, quem o tinha tratado mal, aprendera uma valiosa lição: não devemos discriminar alguém só porque é diferente, sem termos a certeza que essa diferença é inferioridade, não vá dar-se o caso de ser alguém diferente para melhor e ficarmos com cara de parvos.

Feliz Natal.