A indiferença mata, dizem uns. É insana, dizem outros. A indiferença nunca é inócua, sabemos todos. E sabemos, porque sentimos a brutalidade do seu impacto. Todos os gestos de indiferença dos outros nos atravessam e nos marcam, especialmente quando somos vítimas ou nos sentimos vulneráveis.

Nas grandes catástrofes ou nos pequenos acidentes, nos crimes mais hediondos ou nos azares do quotidiano, todos os que sabem e vêm, mas passam ao largo mostrando-se indiferentes perante as necessidades, as urgências e os sofrimentos, cavam ainda mais fundo os abismos de solidão, dor e perplexidade que advêm dessas mesmas situações de injustiça, fragilidade ou discriminação. Em demasiados casos, os indiferentes chegam a pactuar com crimes tornando-se cúmplices de humilhações e infâmias.

O Papa Francisco usou palavras muito claras para falar do ‘hábito da indiferença’ neste domingo, no momento em que entregou aos 13 novos cardeais o barrete vermelho e o anel cardinalício, símbolos do reconhecimento da missão e do sentido de serviço. Perante uma legião de purpurados e ministros da Igreja, à qual se juntou uma multidão de fiéis e amigos dos novos cardeais, o Papa escolheu as palavras certas porque sabe melhor que ninguém que ‘o hábito faz o monge’. E quem diz o monge, diz o bispo, o cardeal e todos aqueles cujas vestes são, acima de tudo, sinal de alguém que professa o amor e a compaixão.

As novas vestes têm que revelar mais uma condição do que um estatuto ou uma posição elevada na hierarquia da Igreja. Têm que anunciar, dar a conhecer a condição do misericordioso, do compassivo, do que nunca se afasta e, pelo contrário, se faz próximo. A cor púrpura tem que ser um sinal de humildade e abaixamento perante o outro, a dor do outro, a fragilidade do outro. Jamais um símbolo de poder e autoridade. Apenas uma certeza de maior compaixão.

“É um requisito essencial. Se não me sinto objeto da compaixão de Deus, não compreendo o seu amor. Não é uma realidade que se possa explicar. Ou a sinto, ou não. E, se não a sinto, como posso comunica-la, testemunha-la, dá-la? Concretamente: tenho compaixão pelo irmão tal, pelo bispo tal, pelo padre tal? Ou sempre destruo com a minha atitude de condenação, de indiferença?”

A interrogação e as afirmações são do Papa Francisco, que insiste nos apelos que tem feito no sentido de não encobrir, nem permitir que outros encubram ou desvalorizem, os crimes cometidos por alguns sacerdotes, bem como os vícios e maus hábitos de tantos homens e mulheres de Igreja.

“Desta consciência viva depende também a capacidade de ser leal no próprio ministério. Vale também para vós, irmãos Cardeais. A disponibilidade de um cardeal para dar o seu próprio sangue – significado na cor vermelha das suas vestes – é certa, quando está enraizada nesta consciência de ter recebido compaixão e na capacidade de ter compaixão. Caso contrário, não se pode ser leal. Muitos comportamentos desleais de homens de Igreja dependem da falta deste sentimento da compaixão recebida e do hábito de passar ao largo, do hábito da indiferença”.

O hábito e os hábitos. O hábito, no sentido da veste simbólica; os bons e maus hábitos enraizados nos que usam estas mesmas vestes. Eis a metáfora de Francisco neste dia memorável em que Tolentino Mendonça se tornou cardeal. Mas o apelo vai muito além dos ministros da Igreja e chega a todos, crentes e não crentes, pois a indiferença é um hábito terrível, uma rotina assassina que mata sempre. Mata a confiança e mata a esperança. Destrói as vítimas e deixa-as prostradas, como o homem da parábola, deixado inerte à beira do caminho, depois de ter sido vítima de violência e pancadas.

Matamos sempre que evitamos e encobrimos ou, pelo silêncio, nos tornamos cúmplices de alguma coisa ou alguém que tem efeitos perversos sobre outros. Também cometemos pequenos-grandes crimes quando passamos ao lado, seja de alguém caído na rua que ignoro porque estou com pressa; seja quando o cego procura ajuda e eu o evito porque sei que não me vê e, por isso, não me condena; seja quando me calo perante injustiças maiores e menores, seja quando assisto passivamente a qualquer forma de agressão ou seja ainda quando está na minha mão mudar alguma coisa e contribuir para resgatar, mas opto por deixar tudo na mesma.

Os hábitos dos indiferentes não atingem só as pessoas que são vítimas, nem tocam apenas temas que doem ou fazem sofrer. Também se revelam daninhos quando se trata de estabelecer direitos e responder a deveres. Quando há uma necessidade imediata e uma oportunidade única para reforçar a consciência. Também por isso foi curioso ouvir o Papa falar contra a indiferença num dia de eleições legislativas, em que a abstenção dos portugueses atingiu um novo recorde: 45,5%. Uma esmagadora percentagem de cidadãos que também preferiram vestir o hábito dos indiferentes, dos que se afastam e preferem passar ao lado.