O incêndio do Pedrogão Grande foi um dos fogos florestais em que mais pessoas perderam a vida nos últimos cem anos em todo o mundo. O espectáculo ignóbil do colapso do Estado no exercício das suas funções mais básicas espantou quem pôde seguir o noticiário: imprevidência, abandono das populações, descoordenação, informações contraditórias. Mas no meio do caos, enquanto os mortos e os feridos se acumulavam, que inquietava o jornalismo e as redes sociais que geralmente zelam pelos interesses de António Costa? Isto: a identidade do autor de um artigo sobre Portugal no El Mundo. A pressão (vinda de Portugal) sobre os editores do diário espanhol terá sido maior do que quando tratam de temas irritantes em Espanha e nas Américas, como a Venezuela chavista. Ficámos assim com uma ideia da máquina de que o actual governo de Lisboa dispõe para “afeiçoar” a comunicação social.

Que fez El Mundo? Apenas isto: especulou sobre as consequências políticas da catástrofe do Pedrógão. Acontece, porém, que El Mundo não reflectia o debate público em Portugal. Nenhum partido ou personalidade influente exigiu a demissão de um ministro, nem sequer de um secretário de Estado, quanto mais do governo. O presidente da república, segundo depois terá feito constar, repetiu fielmente o que o governo lhe disse. A oposição respeitou o luto. O PCP e o BE tiraram, que me lembre, as primeiras férias desde 1974: foi como se não existissem. Não houve, como em Londres depois do incêndio da Grenfell Tower, nenhum “day of rage”. As televisões faziam desfilar “especialistas” a repetir muito disciplinadamente o que dizem todos os anos.

O que aterrorizou então o clube de fãs de António Costa? Não foi a perspectiva de uma improvável insurreição à latino-americana, mas outra coisa: o perigo de acabar o mito que tem sido a força de Costa. Desde o princípio, que António Costa foi apresentado aos portugueses fundamentalmente como um homem de sorte e de habilidade. Perdeu as eleições, mas o PCP e o BE deram-lhe a mão, e chegou a primeiro-ministro. Passos Coelho deixou a economia a crescer e o desemprego a diminuir, mas é Costa quem está a registar os resultados. Que mais provas podia haver da sua boa estrela? Napoleão, como é sabido, preferiu sempre generais menos capazes, mas com sorte, a generais muito competentes, mas azarados. Costa seria talvez um bom general para Napoleão, e era disso que, segundo a oligarquia, o país precisava: um governante a quem tudo corresse bem, um “optimista”.

É óbvio que a oligarquia sabe que nada está assim tão bem. De facto, os oligarcas estão pessimistas. Tão pessimistas, que já só acreditam na sorte e no “pensamento positivo”. Mas a certa altura pareceu mesmo haver sorte: era o dinheiro barato do BCE, era o turismo, era o campeonato da Europa, era o festival da Eurovisão — tudo falava de uma fortuna que não se cansava de sorrir a António Costa. Até ao Pedrógão Grande. Na semana passada, o encanto quebrou-se. Afinal, as coisas também correm mal a António Costa. Pior: a sua encenação de sucesso rasgou-se, para revelar a vulnerabilidade de um país onde o Estado, gastando o equivalente de metade do PIB, nem assim é capaz de poupar os cidadãos a um massacre como o do Pedrogão.

Ontem, porém, houve luz na escuridão. O provedor da Misericórdia de Pedrogão Grande induziu Passos Coelho num lapso, de que o líder do PSD decidiu pedir desculpa. Foi a alegria do costismo. Era a sorte outra vez. Mas talvez o sarcasmo do regime tenha desta vez ficado demasiado patente: é que tivemos desculpas do líder da oposição por um pequeno comentário, mas nem uma palavra de contrição do governo pela incompetência e descontrole que mataram 64 pessoas e deixaram mais de 200 feridas.