Ano 2010, caloira de Engenharia e Gestão Industrial na Universidade Nova de Lisboa. A discrepância de géneros não era notória no curso, mas definitivamente tema de conversa quando víamos as poucas colegas de Engenharia Mecânica ou Engenharia Informática. Lembro-me de comentarmos: “É um curso de rapazes, coitadas, vai ser difícil.”  Olhando para trás e agora com uma experiência diferente, pergunto-me o porquê de ter esta opinião. O simples facto de haver mais pessoas de um género é suficiente para tal justificação? Não explorei mais o assunto na altura, mas agora acho que o principal motivo é a ignorância, não apenas a nossa, somos influenciados pelo nosso círculo, pais, avós, amigos… sociedade. Não digo isto com maldade, é apenas o que é… e acho que temos de estar cientes desta realidade e trabalhar para que mude.

Como disse, foi um tema que me passou ao lado durante todo o percurso universitário, nunca passou apenas de comentários em relação a outros cursos (lembro-me de Engenharia Química ser predominantemente raparigas, também não sei explicar o porquê)… Até chegar ao mercado de trabalho. Tive muitos colegas que enveredaram por uma carreira de consultoria, outros foram reconvertidos para outras áreas, eu, tive a oportunidade de me estrear numa fábrica na Alemanha. Com vinte e poucos anos, acha-se piada ser a única mulher à mesa na hora de almoço, a única na fila para o café, ter a casa de banho do escritório extremamente limpa porque foi usada 3 vezes naquele dia por não haver mulheres por ali. Até que se começa a crescer e ter outras experiências que nos revelam que afinal esta realidade era mais comum do que pensava.

Quando voltei para Portugal, juntei-me a uma empresa que é uma plataforma digital que ajuda empresas a contratar profissionais na área das Tecnologias da Informação (as tais colegas que na altura estavam em Engenharia Informática… coitadas). Agora já dentro de um outro mundo das STEM (Science, Technology, Engineering & Mathematics), rapidamente me apercebi que o número de mulheres nesta área era baixo, principalmente na área das TI. Não só me apercebi deste facto, como era uma preocupação das empresas contratar mulheres, mas a verdade, é que não as conseguiam encontrar. Claro que é difícil, as estudantes de Engenharia Informática são as coitadas que vão ter que fazer o curso no meio dos rapazes. Só de pensar que fui uma das pessoas com esta opinião, dá-me comichão. Tive a sorte de poder enveredar por uma carreira que me abriu os olhos a este nível. Mas, e quem não tem?

O salto profissional seguinte deu-me a oportunidade de lidar directamente com a comunidade das TI em eventos, meetups, eventos sociais. Agora como Embaixadora de uma empresa Alemã em crescimento no nosso país, lido muito com os “fazedores” da indústria (como lhes gosto de chamar). Tal como seria de esperar, a maioria ainda são homens, chego mesmo a ter eventos onde sou a única mulher presente. Também por causa deste factor, tento sempre conhecer as “fazedoras” e fazer por nos encontrarmos. Somos poucas e por isso acredito que se nos unirmos, conseguimos ganhar mais voz.

Gestos como este também dão visibilidade à indústria e rostos que possam representar as mulheres. No fim (e na minha humilde opinião), não há mais presença feminina porque nos foi passada uma mensagem que hoje não faz sentido. Não podemos ter alunas universitárias (como eu) a pensar que as colegas são coitadas. O estímulo para esta realidade tem de acontecer desde cedo e fazer parte da cabeça de mais gente. Partilho com alegria que cada vez mais vejo isso acontecer, mas não chega, temos de continuar a abrir mais mentes. Vamos lá chegar, e acredito que uma das maneiras mais fortes é quando as mulheres se juntam. Mulheres das TI em Portugal, juntam-se a mim?

*Ana Gaspar Embaixadora da Volkswagen SDC:LX, está neste momento a ajudar a marca a implementar-se em Portugal. Foi através da sua jornada no ecossistema das startups que adquiriu o conhecimento e experiência no mundo das TI.

O Observador associa-se à comunidade Portuguese Women in Tech para dar voz às mulheres que compõe o ecossistema tecnológico português. O artigo representa a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da comunidade.