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Há dias estava a dar uma aula. Pedi aos alunos que me dissessem que estados consideravam grandes potências. Falaram imediatamente dos Estados Unidos e da China. Relegaram para outro grupo menos importante estados como a Índia, a Rússia, o Japão e até o Irão. Às tantas perguntei-lhes pela Europa. Responderam que era um caso à parte. “A Europa é uma potência normativa”, disse um aluno. “Tem poder e não tem”.

Até aqui não há grandes novidades. A Europa – especialmente os países da União Europeia – embarcaram na narrativa do Fim da História nos anos 1990. Nada havia a temer se a História estava do nosso lado. Era uma questão de tempo até que os estados insensatos percebessem que a democracia e a economia de mercado eram bens em si mesmos. Nem mesmo a matança nos Balcãs desviou a Europa do imaginado destino. A meio da travessia dos loucos anos 1990, ouvia-se com frequência que a Europa não precisava de um exército porque ninguém a ia invadir. Usava-se para o termo “pós-modernidade” para dizer que aqui se tinha transcendido o permanente estado de conflito que devastava o resto do mundo. E estávamos prontos para mostrar aos outros (inclusivamente aos Estados Unidos, que garantem a nossa segurança há 70 anos) como é que isso se fazia. Assim na Europa, nas últimas três décadas, a política deixou de ser um fim e passou a ser um meio. Uma forma de identidade, como se diria agora. O processo tornou-se muito mais importante que o resultado final.

Entretanto o mundo mudou em várias frentes internas e externas e a fragilidade da normatividade europeia foi posta a nu. Uma fragilidade relacionada com a capacidade de impor seja aquilo que for, seja a quem for. Uns Estados Unidos desavindos, uma Rússia revisora de fronteiras e exemplar para regimes e partidos de estados europeus cansados de tecnocracia e uma China sempre à espreita de oportunidades económicas para ganhar influência na soberania dos outros, mostraram que a Europa e a sua normatividade podem pouco num mundo real onde o que conta ainda é a capacidade para usar força.

O maior golpe veio em 2015 com a crise de refugiados e migrantes – que ameaça repetir-se, em certa medida, nas próximas semanas, se Erdoğan mantiver esta sua mania de fazer política com as armas que tem. A normatividade europeia foi interrompida pela realidade. A única líder europeia que abriu as fronteiras de par-em-par, à revelia dos outros 27 chefes de estado, foi Angela Merkel, que, desde aí, está em penoso declínio, sem substituto à vista, o que é tanto mais grave quanto a Europa, sem o Reino Unido, depende muito de Alemanha para não definhar.

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O que é que aconteceu afinal? É simples. Uma Europa drenada de meios económicos, com uma taxa de desemprego há muito não vista e desorientada relativamente às espectativas futuras viu-se a braços com a pressão de fluxos de refugiados da Líbia e da Síria e fluxos de migrantes económicos dos Balcãs e do Norte de África. O teste era saber o que prevaleceria: a política de sobrevivência, em que os países tinham necessariamente que excluir alguns dos que queriam entrar por razões de incapacidade de acolhimento e estabilidade social, ou a normatividade que ditava que entrassem todos sem exceção, porque os valores europeus assim o ditavam.

Sem surpresas prevaleceu a primeira. Não se pode exigir aos estados, independentemente de pertencerem ou não a instituições supranacionais, que ignorem as necessidades dos seus cidadãos para corresponderem às necessidades dos cidadãos de outros estados. Por muito que custe a cada um de nós, individualmente, o que se passa na nossas fronteiras terrestres e marítimas.

A verdade é que a Europa não fez nada de reprovável – a não ser a incapacidade de se organizar para tentar receber o maior número de refugiados possível, distribuídos equitativamente pelos países. Ainda sem isso, acolheu quem pôde e tentou evitar a todo o custo narrativas simplistas do “Nós” e do “Outro” e islamofobias muito típicas de quem precisa de encontrar bodes expiatórios em tempos de escassez, tentando não alienar as populações preocupadas – uns mais legitimamente que outros – com o seu futuro e o dos seus filhos. O problema é que as políticas que deixam os migrantes de fora chocam frontalmente com as narrativas normativas.

A normatividade europeia foi uma ilusão que durou enquanto os Estados Unidos foram a única grande potência e simultaneamente a potência protetora do nosso continente. Findas estas duas condições, a política terá que seguir o seu curso normal. Maquiavel regressa mesmo sem ser chamado, a um continente que, em pouco anos, e por imprudência, se tornou uma das zonas mais vulneráveis do globo.

Como prosseguir? Precisamos de encontrar uma identidade política renovada que equilibre a hospitalidade (e restantes valores que nos caracterizam) e a segurança. Mas a abertura das fronteiras pela Turquia, que estanca milhões de refugiados que não podemos (nem queremos) receber, voltou a levantar um coro de vozes normativas sobre obrigações morais, direito internacional, e por aí fora. É um erro. No mundo em que vivemos hoje, o discurso normativo absoluto não se compadece da realidade. E a sua reprodução vai deixar-nos sempre aquém das nossas aspirações. E essa é uma das vias mais rápidas para cometermos erros políticos que podem vir a ser irreversíveis.