Há cinco anos atrás, homens de fardas verdes invadiram e ocuparam a Península da Crimeia. O Kremlin, inicialmente, afirmava nada saber sobre esses “homens verdes”, como são hoje conhecidos na história, quando toda a gente já sabia que eles não passavam de soldados russos disfarçados, mas depois acabou por reconhecer, justificando a invasão do território pertencente à Ucrânia com o alegado perigo que corriam os habitantes russófonos dessa região depois da tomada do poder por “forças extremistas” e “nazis” em Kiev.

Os mesmos argumentos levaram tropas russas disfarçadas de voluntários a ocupar também parte do território oriental da Ucrânia e a criar regimes separatistas fantoches em Donetzk e Lugansk.

Hoje sabe-se que se tratou de uma operação preparada com antecipação por Vladimir Putin e a sua corte com vista a mostrar que pretende ao domínio absoluto no antigo espaço soviético e a um papel mais relevante nas relações internacionais.

Esta “marcha vitoriosa” foi acompanhada de uma histeria nacionalista, chauvinista e revanchista, que em muito contribuiu para o aumento brusco da popularidade de Vladimir Putin entre o eleitorado russo.

Porém, não obstante todos os argumentos inventados por Moscovo e a realização apressada de um referendo na Crimeia para justificar a invasão e a anexação, tratou-se de uma violação grosseira do Direito Internacional, nomeadamente do Tratado de Budapeste de 1994.  Este documento levou a Ucrânia e a Bielorrússia a entregarem à Rússia as armas nucleares herdadas da União Soviética em troca da garantia da inviolabilidade das suas fronteiras. Moscovo rompeu este importante compromisso.

Tendo em conta que os Estados Unidos e a União Europeia praticamente não reagiram à invasão da Geórgia por tropas russas em 2008, Putin talvez considerasse que o chamado Ocidente iria “engolir mais um sapo”.

Mas tal não aconteceu, pois a invasão da Crimeia simbolizou uma reviravolta significativa nas relações internacionais, atirando as relações entre a Rússia, por um lado, e os Estados Unidos e a União Europeia, por outro lado, para os piores tempos da “guerra fria”. Além do mais, foram rompidos tratados importantíssimos que travavam a corrida aos armamentos estratégicos.

O Ocidente reagiu com uma enxurrada de sanções económicas e políticas que têm um efeito forte na opinião pública da Rússia. Segundo uma sondagem do Fundo da Opinião Pública se, em 2015, 67% dos russos consideraram útil a ocupação da Crimeia, hoje, esse número desceu para 39%. Por outro lado, aumenta o número dos que defendem a normalização das relações entre a Rússia e os países ocidentais: de 45 para 79% dos inquiridos.

Nestes cinco anos, Moscovo investiu meios significativos na Crimeia, nomeadamente na gigantesca ponte que liga a Península ao território russo. São também necessários meios financeiros importantes para manter a operação militar na Síria e para apoiar o regime de Nicolas Maduro na Venezuela.

Esses meios poderiam ser investidos na modernização das regiões da Rússia e o seu desvio para devaneios imperiais provoca um descontentamento crescente entre as populações locais. Neste campo o Kremlin parece repetir a política da direcção comunista que dirigiu a URSS. A política expansionista foi uma das causas do fim do império soviético em 1991.

Não se pode também deixar de sublinhar que Putin se enganou redondamente em apostar na eleição de Donald Trump Presidente dos Estados Unidos. O Kremlin depositava esperanças na normalização das relações bilaterais, mas tal não aconteceu, bem pelo contrário.

Em Março de 1918, nas eleições presidenciais realizadas a seguir à invasão da Crimeia, Putin venceu com 79% dos votos, enquanto que hoje as sondagens lhe dão o apoio de apenas 39% dos inquiridos.

Talvez ainda seja cedo falar no fim do regime de Vladimir Putin, mas o início da queda já começou.