Vivemos, durante os últimos trinta anos, uma época muito peculiar. Por três motivos: só havia uma potência internacional, que, ainda por cima, era nossa aliada; porque essa potência partilhava, grosso modo, os mesmos valores que nós; e porque isso nos proporcionou uma longa fase de paz, em que os conflitos eram suficientemente periféricos para não nos atormentar particularmente. Isto permitiu-nos acreditar, apesar de uns atropelos na prosperidade na década mais recente, que esta estabilidade podia ser muito duradoura.

Daí que o que tem vindo a passar nos últimos anos – e se agudizou agora – o conflito latente entre os Estados Unidos e a China, nos pareça uma coisa bárbara. Não é. É simplesmente o regresso à normalidade da história e da política internacional. Com todos os seus momentos tensos, avanços e recuos, cálculos e deslizes.

E claro, com os seus aproveitamentos políticos internos. Uma sondagem da insuspeita Gallup, publicada no final de março, dava conta que a maioria dos americanos considerava que a chegada do novo Coronavírus aos Estados Unidos era responsabilidade da China. E que o Partido Democrata, como as suas estratégias de integração, também tinha culpas no cartório, porque tinha deixado Pequim crescer com base na falsa premissa que, quando tivesse uma classe média suficientemente grande, esta forçaria uma viragem democrática e, consequentemente, a China seria um parceiro responsável e racional para a gestão das coisas do mundo.

Nada disso aconteceu, como se sabe. E só se Donald Trump não puder é que o Partido Democrata não vai pagar o preço. O presidente incumbente tem agora uma muito mais difícil reeleição pela frente. Já não pode contar com o fulgor da economia, que estava no centro da narrativa da campanha, e a gestão pública da crise pandémica não lhe tem corrido particularmente bem (pública, porque a Casa Branca não tem poder para impor restrições ou confinamentos. Isso cabe ao poder estadual). Joe Biden é um adversário escondido e a sua diminuta exposição rouba ao presidente o seu alvo natural. Resta a China.

A China tornou-se aos olhos das elites e da população norte-americana o inimigo comum. Há muito que não víamos uma coisa assim, mas Pequim é agora o elemento aglutinador nos Estados Unidos. E Trump, com credenciais impecáveis na crítica a Pequim, trouxe, habilmente, o regime chinês para o centro da sua narrativa pré-eleitoral.

Agora, esta política não é sem consequências. A escolha de um inimigo externo comum seja para que efeitos for, e com o aparente apoio da opinião pública, é um caminho sem volta. Transforma a política externa de um país. Redefine prioridades. Já sabíamos que Trump tinha um problema com a China. O que não sabíamos era que o novo Coronavírus e ia trazer a China definitivamente para o centro das preocupações americanas.

O presidente percebeu, mais uma vez, onde está o foco do descontentamento da população. Mas desta vez, a escolha tem consequências profundas internacionais, como a eventualidade de dividir o mundo em blocos e forçar estados mais fracos a tomar decisões a preto e branco, depois de três décadas cheias de ambiguidades diplomáticas que lhes convinham muito mais. E tenderá a ter um impacto, desde logo, para a Europa. Mas sobre isso, conversamos para a semana.