Em Novembro estive no Japão, numa viagem de lazer a que juntei trabalho, como numa oportunidade destas qualquer profissional liberal deve fazer. Há muitas coisas impressionantes a dizer sobre o Japão, quanto mais não seja o nos encontrarmos do outro lado do planeta (nunca me vira tão longe de casa), o encontro com uma cultura e um país não ocidental e com um nível de desenvolvimento superior ao nosso. A terceira maior economia do mundo (que se sente nas reuniões de trabalho), um sistema de transportes do outro mundo (o metropolitano de Tóquio é um exemplo de cooperação entre duas companhias, uma privada e outra pública), mas, apesar de tudo, o que mais me impressionou foi a boa educação dos japoneses.

Há um cuidado no trato que sentimos na pessoa que não nos pisa no metro, não nos atropela na rua, no respeito pelo espaço vital a que cada um de nós tem direito mesmo quando no espaço público, o respeito que se tem pelo outro quando se conversa com ele, no pouco barulho que se faz nos restaurantes, no silêncio que impera nos transportes (mesmo que também se fale, com a diferença que ali ninguém eleva o tom de voz, não esteja alguém concentrado quanto mais não seja nos seus pensamentos). Há um respeito individual pelo outro que é transposto para o colectivo. O espaço público é encarado como um lugar que, sendo de todos, é cuidado e respeitado e não, por ser de todos, visto como um espaço onde podemos fazer o que nos apetece. Ali a nossa acção não se dilui, soma-se. A título de exemplo do que refiro, a cidade de Tóquio é a mais limpa que conheci, mas não há baldes do lixo (ou são em número muito reduzido, já que não vi nenhum) porque não é suposto sobrecarregar a rua com lixo nosso que deve ser levado para casa. Também me foi dito vezes sem conta que podia deixar a minha carteira e documentos em cima da mesa do café, que ninguém os roubaria. Comprovei que os japoneses assim o faziam quando se dirigiam ao balcão ou aos lavabos mas, verdadeiro ocidental que sou, não fui capaz. A desconfiança levou a melhor e eu perdi uma experiência de vida.

Este género de respeito pelo outro, a um nível individual ou colectivo, quer esse outro seja alguém com quem lidamos diariamente ou esteja simplesmente à nossa frente ou nem isso, seja a soma dos vários outros indivíduos que são os nossos compatriotas, um respeito que se vive a sério no trabalho, nos negócios, no comércio, é o pilar do Japão. É uma ética com um nível de exigência elevadíssimo que explica a implacabilidade para com as fraudes, mas também com o falhanço, com o não se estar à altura do esperado, do que seria natural e que tantos problemas coloca aos japoneses (a taxa de suicídio no Japão é a segunda maior do mundo, e é alarmante entre os mais jovens). O modo como os japoneses vivem parece-nos por vezes um colete de forças mas que não só faz parte da sua forma de ser como também sem ele o Japão não seria o Japão.

Escrevo este texto no seguimento da abdicação do imperador Akihito e a subida ao trono do seu filho, Naruhito. Estando o Japão tão longe, este acontecimento único serviu de pretexto para falar deste país e de referir o ponto a que pretendo chegar: que o respeito pelo interesse público, pelo colectivo, anda a par com o respeito que temos pelos outros enquanto pessoas concretas. O quanto a generosidade colectiva implica generosidade individual. O tal conceito de que se queremos receber, temos de dar. Cresci em Portugal a ouvir falar do interesse público mas sempre num tom impessoal, abstracto e, naturalmente, sem resultados visíveis. Tal sucede porque em Portugal o interesse público é conversa fiada que visa justificar uma agenda política com fins particulares. Não tendo uma base individual, o interesse colectivo é facilmente transformado no interesse de uns quantos que governam e de uma parte da população que tem emprego garantido, seja no Estado ou nas empresas com boas relações com o Estado.

Já no regresso, no aeroporto de Frankfurt e na fila para o avião de regresso a Lisboa, assisti a uma cena que me deu pena: uma guia japonesa, de frente para os que iam entrar no avião, dava instruções aos poucos japoneses que ali estavam. Fazia-o da forma que vi fazer no Japão, e que tendo visto repetidas vezes já me parecia natural: com muita educação, inúmeros sorrisos, algumas vénias pelo meio, um cuidado extremo em se fazer entender. Os europeus, na maioria portugueses, riam-se. Vinham certamente de outras paragens. Longe de casa aquela japonesa estava fora de contexto. Nunca conheci um povo tão educado e, por isso mesmo, tão pouco preparado para lidar com o mundo. O seu sucesso deve-se, única e tão só, a uma ética inabalável.