Esta semana houve Óscares, aquela cerimónia para a qual multi-milionários ricamente adornados, que fizeram fortuna graças a uma sociedade livre e capitalista, são transportados em luxuosas limusines até um sumptuoso anfiteatro para aí injuriarem a maléfica sociedade livre e capitalista, enquanto cantam odes lunáticas ao socialismo ou, nos casos clinicamente irrecuperáveis, ao comunismo. O que prova que há algum exagero quanto à adesão das estrelas de Hollywood à dieta vegan. O regime alimentar realmente em voga por aquelas bandas é, na verdade, o salivanismo: é que não vejo como possa sobrar espaço na louça, tendo em conta o que esta gente gosta de cuspir no prato em que come.

O Óscar de melhor filme foi para uma película sul-coreana chamada “Parasitas”. A vitória foi saudada como um grande triunfo da diversidade e como prova de que a cultura americana não é superior a qualquer outra. Ao receber o prémio, o realizador Bong Joon-ho agradeceu à sua equipa, aos seus pais e aos mais de 35.000 norte-americanos que, na Guerra da Coreia, deram a vida para que ele não nascesse norte-coreano. O que, neste caso, até foi azar. É que, se a ideia era fazer um filme sobre as chocantes diferenças entre ricos e pobre, na Coreia do Norte teriam poupado uma fortuna em cenários e em planos nutricionais para emagrecer os actores. Só não teria resultado porque, ainda antes de acabarem de filmar a primeira cena, Kim “O Facínora III” Jong-un diria: “Corta! A cabeça a este realizador, inimigo do progresso imparável da República Popular Democrática da Coreia.”

Mas, como é óbvio, a grande novidade destes Óscares não foi a profundíssima hipocrisia. O que marcou esta edição foi o escândalo da atribuição da estatueta de melhor actor a Joaquin Phoenix. Como é possível ele ter ganho pelo seu desempenho em Joker? Então agora um chalupa a fazer papel de chalupa merece um prémio? É que nem sequer devia ser permitido concorrer. Isto é um caso claro de doping no mundo da representação. Um indivíduo sadio a fazer de Joker, sim senhor: prémio. Agora, o Joaquin Phoenix? Um homem que, no discurso de agradecimento, mostrou indignação porque, segundo ele, “sentimo-nos com o direito de inseminar artificialmente uma vaca” e “depois roubamos-lhe o leite, que pertence à sua cria, e colocamo-lo no café e nos cereais”? Não, pá. Tenham paciência. Deviam ter guardado o Óscar para quando ele fizer de Gandhi, ou assim.

Enfim, concedo que esteja a ser um pouco injusto para com Joaquin Phoenix. A verdade é que, eu próprio, também me sinto bastante incomodado com a forma como lidamos com alguma, digamos, bicharada. Por exemplo, por estes dias, dei comigo a pensar: coitado do coronavírus. Sentimo-nos com o direito de esmiuçar o ADN de um vírus e depois roubamos-lhe o código genético, que lhe pertence, e colocamo-lo nos antídotos e nas vacinas. Não se faz. Deixem o coronavírus viver livre por esses campos fora, a correr, a saltar e a ser feliz!

Quem está decidido a não dar tréguas ao coronavírus é o presidente da Câmara de Lisboa. Assim que o surto começou, Fernando Medina tomou medidas. Muito mais eficaz do que pôr os lisboetas de quarentena, Medina apresentou de imediato a Zona de Emissões Reduzidas. Muito em breve, os moradores da Avenida da Liberdade, Baixa e Chiado passam a não poder andar de carro. É uma espécie de carjacking em que o perpetrador é, não um marginal, mas uma Câmara Municipal. Só com isto, os potenciais infectados pelo coronavírus ficam logo sossegados nos seus lares. Além de que, segundo este projecto, poderão receber em suas casas, no máximo, 10 visitas por mês e só depois de previamente autorizadas pela autarquia. É mais ou menos como estar na prisão, com a desvantagem de, frequentemente, não conseguir chegar a horas do jantar por causa das greves nos transportes públicos. Pois é, ficou tudo muito espantado com os escassos 10 dias que os chineses demoraram a construir um hospital para os portadores do coronavírus, mas a verdade é que Fernando Medina fez muito melhor com isto da Zona de Emissões Reduzidas, assinando o despacho do projecto em meros 5 segundos.