Um dentista americano, adepto de caça, atraiu e matou um leão no longínquo Zimbabué. O episódio comoveu o mundo, mereceu milhares de publicações em jornais internacionais e levou ao rubro as redes sociais, que perseguiram o caçador. Ora, eu sei que estamos em Agosto, e que talvez por isso o caso tenha gerado uma atenção mediática maior do que teria noutras alturas do ano. Mas, apesar disso, não deixa de ser um retrato importante dos nossos tempos, onde deixou de ser óbvio que a vida humana vale mais do que a vida animal, e onde as redes sociais tentam (e por vezes conseguem) alterar o nosso padrão moral.

Não vou defender o caçador, cujo acto não considero merecedor de defesa. Mas julgo impossível de deixar escapar a contradição assente no facto de gerar mais indignação a morte de um leão a milhares de quilómetros de distância do que as atrocidades contra homens, mulheres e crianças com que nos defrontamos frequentemente, seja em África pelas mãos do Boko Haram seja até na Europa e em Portugal. Não é só uma questão de proximidade, é sobretudo de princípio: afinal, não é razoável humanizar os animais, colocando humanos e animais no mesmo plano. Parece-me óbvio e consensual que, por mais que se defenda os direitos dos animais, numa situação limite, escolher entre salvar a vida a uma criança ou a um gato não nos deveria fazer hesitar. Só que, por via da intervenção das redes sociais, o óbvio deixou de ser óbvio. E é precisamente por esse motivo que o caso da morte do leão Cecil se tornou interessante: ele exemplifica como as redes sociais conseguem, para determinadas situações, alterar o padrão ético e moral pelo qual nos guiamos.

É um mundo estranho aquele que, por um lado, glorifica Dzhokhar Tsarnaev, o bombista da maratona de Boston que matou 3 pessoas e feriu mais de 250, elevando-o a ícone pop na capa da revista Rolling Stone, e, por outro, assiste ao linchamento público de Walter Palmer, o dentista americano que matou o leão Cecil. Facto é que, desde que a sua identidade se tornou conhecida, Walter Palmer ficou refém de um julgamento popular e sujeito a apelos à sua extradição para o Zimbabué, à aplicação excepcional da pena de morte, a ameaças concretas por parte de activistas, à divulgação da sua morada, à exposição da sua vida privada e a da sua família, à perseguição no seu local de trabalho (que teve de encerrar). A tudo e mais alguma coisa, sem dó nem piedade.

Não é caso inédito e, por certo, não será o último – há semanas, escrevi aqui sobre como as redes sociais reduziram a pó a carreira do cientista Tim Hunt. Mas, não sendo inédito, ilustra na perfeição como tudo em que acreditamos – o direito à privacidade, a salvaguarda da família, a presunção da inocência – pode ser derrotado por indignações em massa construídas com os 140 caracteres do twitter. Sim, o caso demonstra como esta cedência às redes sociais, tanto aqui como em outros casos, é errada. E, sobretudo, como é perigosa, pois legitima-as enquanto tribunais populares da modernidade, tão despóticos quanto os originais, e munidos de poder e influência assustadores. Hoje, ao serviço de egos anónimos movidos pela ilusão de que lhes compete castigar aqueles que não sofrem castigo, as redes sociais lincham com total impunidade.

É inútil acharmos que é possível alterar esta realidade e evitar que as redes sociais sejam o que são. Mas seria útil reflectir sobre como minimizar os seus efeitos, nomeadamente aprendendo a resistir-lhes. Por exemplo, nas instituições e empresas, impedindo que sejam elas a decidir acerca do mérito das pessoas – dispensar um colaborador porque está a ser linchado nas redes sociais (como sucedeu a Tim Hunt) só serve para reforçar o poder destas. Ou, nos jornais, detendo a tentação das audiências e não deixando que sejam as redes sociais quem decide o que é a notícia. É que, no final de contas, as redes sociais também matam – destroem vidas, carreiras e reputações. E, contra isso, também faz falta alguma indignação.