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Serviços públicos

O melhor dislate do ano

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Que mania, a dos nossos concidadãos, que insistem em usar os serviços que lhes disseram ser públicos. E, logo que precisam, vão todos ao mesmo tempo. É muito irritante.

O melhor dislate político do ano está na “justa” que disse que as filas de espera acontecem porque as pessoas vão cedo para fazer…fila. Indo mais tarde, como se deseja, mantendo-se a capacidade de resposta constante, continuam a não ser atendidas. Logo, talvez indo no dia seguinte, ainda mais cedo, haja alguma possibilidade de conseguir atendimento. Como houve muitos estúpidos a fazer este raciocínio, foram crescendo os madrugadores. Espantem-se os matemáticos. Os que chegaram primeiro foram atendidos e os que chegaram depois de saturada a capacidade de resposta não tiveram a mesma sorte. O melhor mesmo é ir tão tarde que o serviço já esteja fechado. Fica com uma boa justificação para não ter sido atendido e não teve de esperar em filas. Ganhou o passeio e o apreço da secretária de estado. Eu também tive, há bem pouco tempo, a satisfação de esperar em fila numa loja do cidadão.

A minha saga começou em maio. Tentei marcar. Havia vaga para uns meses depois. Não daria. Confesso que nunca imaginei que houvesse tão grande procura de passaporte ou cartão de cidadão. Comecei por ir a Marvila, num sábado depois de um feriado à sexta. Tontice. Imaginei que, dada a procura, os serviços estariam a funcionar. Não estavam. Fizeram ponte. Mas no sítio da net, onde procurei a informação sobre o horário de atendimento, estariam abertos, como seria lógico supor dada a dificuldade em conseguir atendimento. Não desisti. Voltei a Marvila. Fui às 8h e 45 m, incauto, noutro sábado, já que tenho a desventura de trabalhar em dias úteis. Fila pequena, mas já não havia senhas para passaporte. Estavam todos servidos, os que tinham ido cedo. Voltei lá às 7h, noutro sábado. Fila enorme. Fui a correr a Odivelas, fila ainda maior. Bem sei que deveria ter ido ainda mais cedo mas, cansado, preciso de dormir alguma coisa e já me basta chegar às 7h30m ao meu trabalho diário.

Após 3 tentativas, seguindo o raciocínio do governo e o conselho do ministro das finanças que também sabe como não esperar em filas de cidadãos menos móveis, lembrei-me de ir mais longe. Aproveitei o feriado municipal de Lisboa. Meti-me a caminho e percorri 150 km para ser atendido, sem filas e com um desvelo nunca antes sentido, no Espaço do Cidadão de Mação. Excelente ideia, a do atual governo, ter inaugurado esta loja, com a presença da Dra. Anabela Pedroso que, presciente, já sabia que seria aqui que os lisboetas deveriam ir quando a coisa estivesse difícil num raio de 100 km. Parabéns a quem lá trabalha. Melhor seria impossível. Percorri 150 km de volta a Lisboa. Voltei lá, mais 150 km, para recolher o passaporte e pedir a renovação do cartão de cidadão. Até aproveitei para trocar a titularidade do meu carro. Com 600 km de viagens, portagens e gasóleo – pois é, ainda ando com esse infame combustível que o governo quer eletrificar –, mais emolumentos, ganhei a simpatia de quem me atendeu e a solução do problema. Claro que, para quem não tem meios próprios de transporte, pode sempre alugar um táxi ou ir na rodoviária até Abrantes e trocar de camioneta para Mação ou, idealmente, ir na CP, se houver material rolante, sair em Alvega Ortiga, mandar vir um táxi e chegar a Mação.

Mas afinal reduziram as horas de trabalho na função pública de 40 para 35h e os serviços não melhoraram? E com tanta procura, não seria a hora de abrirem aos Sábados à tarde e aos Domingos? E já foram espreitar as filas nos atendimentos da segurança social? Ou em alguns centros de saúde? Ou em serviços de urgência hospitalar? Que mania, a dos nossos concidadãos, que insistem em usar os serviços que lhes disseram ser públicos. E, logo que precisam, vão todos ao mesmo tempo. É muito irritante.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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