Num livro de ficção sobre a Cintura da Ferrugem, no pós-crise de 2008, Philipp Meyer, dentro de uma das suas personagens, descrevendo as paisagens desoladas da sua cidade industrial falida, escreve o seguinte: “Havia qualquer coisa de particularmente americano naquela situação – um sentimento de culpa pela má sorte –, a resistência de cada um ver a sua vida como sendo afetada por forças sociais, uma tendência para atribuir problemas que nos ultrapassam ao comportamento individual. O reverso feio do Sonho Americano” (American Rust, 2009).

Este tema está longe de estar terminado. Regressa agora no recém-publicado The Tiranny of the Merit, de Michael Sandel, professor de Ciência Política em Harvard. Sandel argumenta que a sociedade norte-americana está dividida em dois grupos, muito distintos da habitual esquerda e direita.

Um grupo são os “perdedores” da globalização, que nas últimas décadas se foram apercebendo de que “as suas expectativas económicas e que as suas identidades já não dependiam das comunidades locais e nacionais”. Se ao princípio veio uma onda de culpabilização, como a que descreve Meyer, aos poucos ela foi substituída por “rancor” nas palavras de Sandel. Roubaram-lhes a possibilidade de aceder ao sonho americano.

O outro grupo são os “vencedores” da globalização, que mantém o pensamento da personagem de Meyer: acreditam que ascenderam por razões de mérito e que os que ficaram para trás são quem não soube aproveitar oportunidades. A narrativa dos vencedores é que a educação é o elemento fundamental para o (seu) sucesso e para o fracasso dos outros. E isso determina que “quem está no topo acredita que merece o sucesso. E, se as oportunidades são realmente iguais, isso significa que os que ficaram para trás também merecem o seu destino”. Para estes, o sonho americano está vivo e recomenda-se.

Assim, o que separa a América em vésperas de eleições renhidas e agressivas é um dos seus mais duradouros mitos. O mito do sonho americano tem duas vertentes: a factual, a perda vertiginosa de poder de compra ao longo de quatro décadas sufoca o empreendedorismo. E a moral: os “vencedores” não têm razões para glorificar o seu mérito. A elites americanas são agora um grupo estreito que se auto-protege e cerra fileiras, de forma a deixar os restantes de fora. E, por maioria de razão, não podem “culpar” os outros dos seus fracassos. É que o mérito individual e o acesso às oportunidades foi substituído por um mérito fictício, alimentado por outros atributos muito menos nobres.

Assim, os mais ricos e os mais pobres defendem sistemas diferentes de sustentabilidade económica. Sem se aperceberem – aparentemente – que sem uma classe média alargada e sem problemas existenciais, vulgo, identitários, o seu país não funciona politicamente. Mais, a polarização acentuada, que resulta de cada um dos sistemas económicos que se quer defender à custa dos outros, deixa de lado um valor imprescindível para o funcionamento de qualquer sociedade: uma conceção mais ou menos análoga de bem comum. Que os Estados Unidos da América, hoje em dia, não têm.

O problema, explica-nos Michael Sandel, começou na revolução económica da era Reagan-Thatcher. Mas a forma como os partidos norte-americanos se adaptaram ao fenómeno de desigualdade social, que foi aparecendo em consequência destas políticas, teve diferenças significativas. Enquanto os republicanos se instalaram confortavelmente na sua posição de beneficiar politicamente as elites, enquanto estas se dispusessem a criar riqueza que beneficiasse todos – nomeadamente através da criação de emprego –, os democratas tiverem duas reações difíceis de aceitar pelos votantes.

A primeira, foi a narrativa da economia “tecnocrática”. Apresentada numa linguagem técnica e elaborada, a globalização começou a ser vista pela população como algo que não lhe cabia entender. Apenas cooperar para que o país evoluísse e as suas carteiras beneficiassem com isso. Mas ao contrário das promessas, as coisas não ficaram melhores. Muito pelo contrário.

A segunda é que os democratas não conseguiram perceber o erro que cometiam ao trocarem a sua base natural – os trabalhadores – pelo que entenderam que eram os excluídos da própria globalização: as minorias. E em preocuparem-se mais com questões politicamente corretas do que com os problemas concretos de todas as pessoas. Ocupados com esses assuntos, “muito pouco fizeram para travar a crescente desigualdade e o crescente poder do dinheiro na política. Tendo-se desviado da sua missão tradicional de conter o capitalismo e de submeter o poder económico à fiscalização democrática, o liberalismo perdeu a sua capacidade de inspirar” e, por conseguinte, tornou-se “vazio de significado público”. Sandel, liberal moderado, acredita que este papel cabia aos democratas.

O autor parece ainda acreditar que Barack Obama terá revertido temporariamente a situação durante a campanha eleitoral, colocando nos seus discursos a economia no seu devido lugar, mas que sucumbiu ao establishment enquanto presidente. Demasiado prudente e ortodoxo e sem capacidade de inverter a situação, mesmo face a uma crise que podia ter sido transformadora, deixou tudo (quase) na mesma, acabando, com isso, por alimentar radicalismos dos dois lados da barricada. À esquerda, não evitou a radicalização do seu próprio partido – que hoje parece gostar mais de Kamala Harris do que de Joe Biden – e, à direita, permitiu uma verdadeira revolução antiliberal – chefiada por Trump –, que conseguiu ganhar quatro anos na Casa Branca.

Porquê escrever sobre isto agora? Por três motivos. Primeiro, porque sem se encontrar a origem das polarizações em sociedades democráticas, por muito que haja eleições periódicas e justas, mantendo o método de escolha dos incumbentes, continuam a degradar-se as relações institucionais e sociais, que já não andam de boa saúde. Segundo, porque o centro-esquerda, não só nos Estados Unidos mas no mundo democrático, anda a correr atrás do prejuízo em vez de se reinventar, abrindo o flanco a movimentos populistas e extremistas que, ou as coisas mudam, ou não vão parar de crescer. Terceiro, porque, muito provavelmente, as eleições de 3 de novembro vão decidir-se na Cintura de Ferrugem, onde o sonho americano – vulgo, a capacidade de ascender socialmente através do (verdadeiro) mérito e do trabalho árduo – morreu. E nenhum dos candidatos conseguiu mostrar o que fazer para o trazer de volta. O que torna os resultados eleitorais mais imprevisíveis do que as sondagens levam a crer.

E o resultado das eleições pode dizer-nos alguma coisa sobre como os americanos veem este problema. A maior clivagem eleitoral de 2016 foi a clivagem educativa e, consequentemente, social. Mas vai dizer-nos pouco acerca da forma como o mérito tem de voltar a estar associado à recompensa, à mobilidade social. E de como os americanos – e outros povos da Europa – precisam de se reinventar para que a falta de coesão social não acabe por dar cabo das nossas vidas.