Sporting

O método de Bruno de Carvalho

Autor
  • Luís Vilar
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Analisando o perfil de alguns populistas, como Sílvio Berlusconi ou Donald Trump, podemos também encontrar em Bruno de Carvalho comportamentos convergentes.

É possível que Bruno de Carvalho tenha ido um pouco mais além nestes últimos dias do que é seu hábito, mas a raiz da sua personalidade, comportamento e a atitude vem sendo esta ao longo dos últimos três anos. Desde então, já foi reeleito pelos sócios com perto de 90% dos votos, e viu legitimada as suas alterações estatutárias com semelhante percentagem em assembleia geral convocada para o efeito. E são muitos os que ainda têm dúvidas se Bruno de Carvalho não voltaria hoje a ser reeleito…. Goste-se ou não, estamos perante um caso de sucesso.

Dei por mim a pensar como é que a sua liderança consegue impactar pela positiva sócios de uma instituição desportiva centenária, com um palmarés invejável à escala mundial. Procurei então respostas na sociologia e na conceptualização política do fenómeno do populismo, e rapidamente percebi que existe um paralelo entre a política e o futebol, o Estado e o clube, os políticos e os presidentes, os eleitores e os sócios, e entre a vida e a vitória.

Analisando o perfil de alguns populistas, como Sílvio Berlusconi ou Donald Trump, podemos também encontrar em Bruno de Carvalho comportamentos convergentes.

Em primeiro lugar o “Aparecimento”. O populismo prolifera em sistemas altamente competitivos, onde os líderes tradicionais perdem credibilidade junto dos seus eleitores. Alimenta-se das expetativas defraudadas e das situações de crise económica.

Em segundo lugar a “Personalidade”. O líder possui uma capacidade mobilizadora e promove o culto à sua personalidade. É geralmente autoritário e apresenta um discurso agressivo, arrogante ou teimoso. Cria uma espécie de realidade paralela, baseada em exageros e emoções exacerbadas, que infantilizam e confundem o eleitor, com o objetivo de manipular o seu julgamento. Promete metas megalómanas, mas raramente comunica medidas concretas em prol desses objetivos.

Em terceiro lugar a “Conduta”. Invoca permanentemente o “nós” e os “outros”, e afirma lutar incansavelmente pelos direitos do povo que representa o bem e a justiça social, contra a elite privilegiada que representa o mal e a corrupção. Vangloria-se de ser o porta-voz da maioria injustiçada contra os lobbies instalados, afirmando procurar uma rotura com o status quo.

Em quarto lugar a “Comunicação”. Utiliza mensagens simplificadas e diretas, que sejam percetíveis pelos eleitores, e recorre a publicações e manifestos que unem a maioria a seu favor. Quando os eleitores reconhecem a linguagem, identificam-se com o plano de ação. Convence, sobretudo, as camadas sociais menos instruídas, mais desiludidas com a vida, e com menos rendimentos.

Por último a “Evolução”. Com o tempo, os meios passam a justificar os fins, e o líder comporta-se de forma extremista. Diaboliza as instituições existentes, procurando afastar os rivais e admite fazê-lo violentamente.

Constatamos assim que existe uma diferença entre ser-se popular e ser-se populista: enquanto o primeiro promove a ordem democrática, o segundo é uma causa da desordem; a estratégia popular é moderada, construtiva e segura, e a populista é extremista, paternalista, destrutiva e perigosa; medidas de política populares são construtivas e realistas, baseadas em medidas concretas, e modelos idealistas são difusos, imprevisíveis, e prometem o que não sabem se podem cumprir. Não obstante, o líder que distorça a verdade para obter ganhos pessoais e que lute por sobreviver sacrificando a sua equipa apresentará, mais tarde ou mais cedo, resultados negativos.

Vice-Dean da Faculdade de Ciências da Saúde e do Desporto da Universidade Europeia

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