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Crónica

“O meu sonho é acabar com o mundo à fome” /premium

Autor
  • José Diogo Quintela
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O nosso compatriota só não informa se a Miss Hitler vai depois participar, juntamente com a Miss Mao, a Miss Estaline e outras laureadas, numa competição global chamada, sei lá, Miss Univermes.

A juventude portuguesa borrifa na Europa? A abstenção de Domingo indica que sim. Mas há excepções. Como se descobriu esta semana, ainda há jovens empreendedores empenhados na organização de certames internacionais com o objectivo de interagir com europeus de outras nações. Tudo bem que o certame internacional é o concurso Miss Hitler, mas pelo menos o organizador não fica em casa agarrado às redes sociais e mostra vontade de participar na construção de um projecto comum, sob a égide de um líder que, à sua maneira, também quis unir a Europa.

Ao que tudo indica, o evento que se propõe escolher a nazi mais bonita do Continente é organizado por um português, João Branco (não sei se é nome de baptismo, se pseudónimo). Não sei se, como milhões de portugueses, João Branco não liga ao Interrail, mas pelo menos tem interesse num político que incentivava o uso do comboio por todos.

Segundo a página do Facebook, o concurso é uma “competição hitleriana saudável”, o que significa que é organizado no espírito de fairplay a que Hitler sempre nos habituou. E que a Miss Simpatia vai acabar assassinada pela organização, que não tolera simpatia. O objectivo é promover a “cultura hitleriana”, traduzindo a “inspiração de Hitler” e incentivando “a originalidade, a criatividade e a boa fé”. Só não se informa se a Miss Hitler vai depois participar, juntamente com a Miss Mao, Miss Estaline e outras laureadas, numa competição global chamada, sei lá, Miss Univermes.

Obviamente, o nosso compatriota tem noção que há quem possa considerar ofensivo a mistura de Hitler com um concurso de beleza, de modo que garante que será tudo feito com bom gosto. Não tão obviamente (mas, quando se pensa melhor nisso, expectável) ele acha que quem pode ficar ofendido não são os fãs de concursos de beleza, mas os admiradores de Hitler. Daí garantir que o evento “não pretende denegrir ou ofender Hitler e o nazismo”. Aliás, garante que “se alguém se sentir ofendido, acredite, Hitler vai estar a ver-nos lá de cima”. Que, cheira-me, é o tipo de frase que, essa sim, ofenderá nazis: não só por dar a entender que existe o Céu dos católicos, mas também por afirmar que Hitler mora lá. Em princípio, a haver Céu, o porteiro é São Pedro. Como reagira o Führer se lhe dissessem que a sua entrada no Paraíso fora franqueada por um judeu?

Confesso que estou dividido em relação ao concurso. Por um lado, o nazismo repugna-me. Por outro, mulheres bonitas a desfilarem em fato de banho atraem-me. Mesmo que me estejam a fazer um sieg heil! Não estou habituado a que mulheres bonitas em fato de banho me acenem, de maneira que relevo que a saudação que me fazem é a romana. Ou seja, estou perante um conflito moral. Felizmente, não serei obrigado a escolher. As concorrentes tratam disso por mim. Duvido que aceitem participar no desfile de fato de banho. Qualquer nazi sabe que, quando a organização de um evento manda preparar para o banho e depois não há banho, é mau sinal.

O concurso tem de resolver outras questões logísticas. As perguntas, por exemplo. Prevejo confusão:

– Candidata nº3, qual é o seu sonho?

– O meu sonho é acabar com o mundo à fome.

– Não quererá antes dizer “acabar com a fome no mundo?”

– Que estupidez. Porque é que diria isso? Tenho esta cara de anjo, mas não sou boa pessoa.

Não sei se um concurso de misses é o tipo de evento que melhor combina com o nazismo. Se é para ressuscitar uma competição desgastada, popular nos anos 80, mas a que já ninguém liga, faz muito mais sentido juntar Hitler aos Jogos Sem Fronteiras. Tem tudo a ver.

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