(Nota: hoje não escrevo sobre gestão pelo que, usando da minha liberdade de expressão e opinião pessoal, peço desculpa a todos quantos esperariam, eventualmente, que o fizesse.)

Não há quem goste dela, da morte. E há quem se recuse a falar dela. Como há quem negue sentir-se finito. Porém, é inexorável. Falar dela e escrevê-la é também depurá-la e encará-la como regular, na verdade incontornável. Frases, músicas ou imagens que evoquem ou simbolizem a morte, provocada ou não, e de várias mortes, serão, ao contrário do que se possa pensar, uma procura de vida, de eternização.

As artes e as letras procuraram sempre deixar uma marca para além da morte, um cunho tanto de morte quanto de superação. A pintura imortaliza a morte. A música ecoa sons de morte que se vão tornando eternos. A escultura, o cinema, a poesia. Tantas expressões que procuram nos sentidos e nas emoções a arte para vencer, transpor, exceder a morte. Morte provocada como morte natural.

Desde que o homem é homem que existe com total finitude. Umas vezes mais cedo, outras mais tarde. Umas desafiando a média, em alta, outras mandando-a ao chão. A realidade é, porém, esta: o homem é finito, está finito, foi concebido finito. E não saber conviver com a morte é não saber viver a vida.

Desenganem-se, porém, todos quantos pensam que a morte é apenas física. Há mortes, tantas mortes em vida. Há tantos calvários, paixões em vida. Tão dolorosas quanto a morte física. A ausência de amor-próprio, os maus tratos, a quebra de relações profundas, de amizades e proximidades longas, a doença que captura, o linguajar viperino que, alimentando-se de maledicência, destrói indivíduos, aprisiona emoções, escravizada à morte em vida. Há muito dano emocional complexo, irrecuperável, que representa morte. Matam-se filhos (asfixiam-se por exaspero, aprisionam-se por protecionismo, tolhe-se-lhes a liberdade de forma radical) como se matam pais (desrespeitam-se profundamente, menorizam-se por achincalhamento, obliteram-se e exasperam-se, vulnerabilizam-se em idade venerável).

Hoje é dia de morte. De paixão e de morte e todos sabemos, ou devíamos saber, o que recorda. A importância da pausa, do feriado, do compasso de espera para que, após a morte e pela morte se possa gerar vida. Outra vida. Mais vida. A morte, em si mesma, não se soleniza, não se celebra, não se festeja. Memora-se, relembra-se, para antecipar, por pouco que seja, um sorriso de vida. É mais uma homenagem que uma festa. E neste caso é muito mais uma esperança que, a seu tempo, se volte à vida.

O meu vizinho alentejano, com perto de noventa anos, foi abandonado num casebre sem nada. Literalmente nada. Nem uma janela tem. Apenas uma porta para a rua. Um compartimento minúsculo. Um cheiro inenarrável num campo que rescende a campo e que perfuma bem. Contrasta, portanto. Está em espera, em paixão, e ele mesmo me diz, quando passo para o cumprimentar, ou que aguarda o almoço – levado pela senhora da Misericórdia da vila – ou o jantar. E, no entretanto, confia. Confia que virá um almoço ou um jantar. Confia que dormirá mais uma noite. E viverá mais um dia e mais uma noite. Sempre o mesmo e sempre ao mesmo compasso. Vagarosamente. É também isto o Alentejo.

Vive sentado numa cadeira pois os anos – e a vida de trabalho e carregos – não lhe permitem mover-se. Apanha sol e vê passarinhos. E encolhe os ombros, sempre esboçando um sorriso bondoso, quando lhe pergunto, preparando um sotaque que não tenho, “então como está hoje, vizinho?”. O rádio responde, ao fundo, sempre com a mesma música. A televisão não chegou ao casebre. O céu azul, quando azul, e o sol, quando há sol, chamam-no ainda à vida. E o almoço ou o jantar da Misericórdia. Ao céu escuro ou à chuva fecha a porta e, sabe-se lá como, agoniza na sua paixão. É a sua paixão. Longa paixão à espera de uma outra vida.

E repete-me sorridente, como se não mo tivesse dito mil vezes, tanto tempo este, o tempo que demora a vir o Criador. E aponta o dedo ao céu, em riste: “Já lá devia estar”…e ao fim de uns minutos de silêncio reitera: “Porque não vem Ele buscar-me?”. E continua sentado, à espera. São as frases mais próximas do desespero – e que são leves – que lhe oiço. No resto, sorri menos para a vida que aqui tem e sorri muito para a vida que espera. Aceita e vive a sua paixão. E alegra-se tanto, mas tanto, quando apenas passo para lhe dizer bom dia.

Sei bem o que o dia de hoje significa, já o disse. E por tudo o que o dia significa, chova ou faça sol, é dia de ver o meu vizinho alentejano. De o cumprimentar. De lhe perguntar como tem passado. De cruzar com ele o olhar e trocar palavras. Há uma semana que não o vejo. Em boa verdade vejo-o apenas ao fim-de-semana. E nem todos os fins-de-semana. E nunca sei se na semana seguinte ainda o verei. Pedir-me-á um biscoito quando sabe que não lho darei – tem uma diabetes interesseira. E ali está, sentado, digno da sua paixão. Aceitando-a e sorrindo-lhe. Mesmo se com muitas mortes, por abandono e esquecimento, continua a elevar o dedo ao céu e a dizer: “Já lá devia estar…”. Como que a dizer “estou à espera de nova vida”.

Hoje, neste dia, tenho de visitar aquela paixão. Falar-lhe. Deixá-lo dizer-me bom dia. Deixá-lo levantar a cabeça que olha o chão e ver que estou ali. Para nada ou para tudo. E o tudo será tudo o que terá de diferente, para ele, este dia. Mais um dia na sua paixão. Mas talvez, quiçá e como às vezes me diz, já com lágrima ao canto do olho, ou a meio do rosto, mas nunca escondendo o sorriso e num sotaque inigualável, “o vizinho hoje trouxe-me a alegria; bem-haja”.

Tudo isto para dizer que a vida é, talvez, um milagre. Para logo concluir que a morte, a paixão e a morte, evidente, incontornável, inexorável, será um mistério. E um mistério a que o homem deu expressão por flores e cores, por sons e divagações, por letras e canções.

Aquilo que podemos saber é que o homem é tremendamente pequeno pela morte. Não a venceu. Não a vencerá. Mas o homem é tremendamente grande quando lhe dá, à morte, expressão de vida. Quando a eterniza através de que manifestação for. Mesmo se inconsciente, se não crente, se em negação, o homem só será efetivamente grande se conseguir eternizar-se para além da sua própria morte. É isso que o faz maior que ela. É isso, também, que o faz procurar a superação. É a sua vida e é o ser e o estar para além dela. Notória ou não, real ou imaterial, a vida para além da morte é a vida eterna.

Quem procura eternizar-se procura um sentido para a morte. Quem procura suplantar-se em vida procura um sentido para a morte. Por isso a morte, bom sabê-lo, dará lugar a mais vida. Não o fim de alguma coisa. Antes a suprema manhã… de Vítor Hugo.

Hoje ficarei de novo a saber que a forma como o meu vizinho espera é não desesperar pela espera. É aceitar a sua paixão. Mesmo se por meio de uma lágrima ou outra mas sem nunca esconder o sorriso, o que este meu vizinho espera é pela sua suprema manhã.

Pois bem, em dia de paixão e morte é dia de visitar o meu vizinho alentejano. Para lhe levar um pouco de vida. E é dia, igualmente, de relembrar e honrar todos quantos têm caído, de forma infame e cobarde, às mãos do terrorismo internacional e dos fanatismos religiosos. Dando vidas. Porque acredito, por maior que seja a minha indignação, que nem tudo terá sido em vão. Primeiro porque nunca vencerão todas as vidas, e a vida. Segundo porque estas mortes já se eternizaram, precisamente, no combate pela vida. Tal como a vida do meu vizinho alentejano se eternizou quando aponta o dedo ao céu e diz “vem-me buscar…para me dares vida”.

Professor Catedrático, NOVA SBE – Nova School of Business and Economics, crespo.carvalho@novasbe.pt