Nota: 12

Quando o diplomata e poeta Luís Filipe Castro Mendes tomou posse como ministro da Cultura, o governo de António Costa já tinha quase cinco meses. Castro Mendes, que substituiu o desbragado João Soares, é assim uma espécie de passageiro semi-clandestino que, nessa condição, se tem esforçado, com razoável sucesso, por não dar nas vistas. Tem sido discreto, mas, em comparação com o seu antecessor, sê-lo-ia sempre.

Mas nem toda a discrição do mundo pode esconder a falta de traquejo político, que o próprio reconhece. Há um mês e meio, quando foi ouvido pela primeira vez no Parlamento, o ministro teve de esclarecer as suas declarações quando disse não estar satisfeito com o orçamento do ministério. Afirmou que se tratara de um problema de comunicação, que tinha sido uma “boa lição política” e, para o futuro, prometeu frases mais curtas. Naquela ocasião, acompanhado pelo secretário de Estado, Castro Mendes levou alguns ases, como o anúncio de um novo director artístico para o Teatro São Carlos, e alguns duques, como a falta de uma solução para a Fundação Côa Parque.

Sobre a RTP foi sincero: “É toda uma área que tenho de estudar. Sou um homem da cultura”, desculpou-se. O problema é que cultura e política andam a velocidades diferentes e o ministro tem revelado dificuldades para entrar no ritmo da política (o que, por outro lado, é bom pois ao fim de três meses na Ajuda ainda não ameaçou nenhum cronista do Público). Curiosamente, o momento mais relevante dos 83 dias de Castro Mendes à frente do ministério foi o anúncio do alargamento da oferta da Televisão Digital Terrestre, uma medida sem “custos adicionais para o Orçamento Geral do Estado” e que, de acordo com nota divulgada à imprensa, “vai impactar positivamente cerca de 2,5 milhões de cidadãos.”

No resto, o próprio sítio oficial do Governo é parco em informações sobre as actividades do ministro. Além da referida nota sobre a TDT, constam apenas um protocolar “Discurso do Ministro da Cultura na cerimónia de assinatura do contrato para reabilitação da zona envolvente do Claustro do Rachadouro no Mosteiro de Alcobaça” e uma nota de pesar pela morte do designer Carlos Rocha. No discurso em Alcobaça, Castro Mendes sublinhou que a cultura “pode e deve ser […] um contributo para a criação de riqueza para o país, sem matar a galinha dos ovos de ouro, antes ajudando à criação de mais galinhas e de mais ovos.” A cultura pode e deve ser isso, sim, mas o ministro sabe que o desafio que tem pela frente é o de fazer mais com menos galinhas na capoeira e menos ovos no cesto. É, digamos, um problema pecuário, aritmético e cultural que só alguém com peso político poderia resolver satisfatoriamente. Um peso que este ministro não tem.