Muito se poderia dizer sobre o processo liminar de rejeição parlamentar da inacreditável eutanásia.
Mas seria injusto e errado não reconhecer publicamente o papel fundamental que no caso teve o voto do Partido Comunista Português, cabendo assinalar, a esse título, o exemplar, magnífico mesmo, texto justificativo desse voto pré-divulgado a propósito pelo respectivo gabinete de imprensa.
Não sendo um texto religioso mas jus-filosófico, podia, afinal, ser publicado num qualquer site diocesano.
E que não se limitando a assinalar, justamente, a enorme relevância da mediação política – partidária no sistema da democracia representativa e do valor da coerência doutrinal, nos remete também, afinal, para uma insubstituível e crucial dupla dimensão da sociedade humana: a da consciência moral individual e a da vida em relação.
Muitos parabéns, portanto, ao PCP, que sem medo e sem complexos esteve assim ao serviço da vida e da vida em sociedade.
E já agora, cometeria a mesma falta ou erro de análise quem também não se tivesse apercebido, positivamente, quanto à mesma gravíssima questão, do papel de activa liderança social e política assumido ao centro e à direita pelo CDS e por um certo PSD histórico, bem capitaneado pelo líder da sua bancada parlamentar (Fernando Negrão).
Entre o tribal niilismo voluntarista e turbulento do Bloco de Esquerda, que nunca pretendeu para os seus apaniguados senão o domínio totalitário do Estado e das suas rendas (sob muitos outros pretextos), o indiferentismo relativista e cínico do PS (que quer o mesmo com outros modos e outra linguagem) e a desastrada pretensão “humanista” da actual liderança de um PSD, que nem sabe o que é, nem o que quer, e assim se afunda e torna socialmente irrelevante, sobraram aquelas decisivas intervenções à esquerda e ao centro-direita, as quais, só por si, vitalizam a democracia e o Estado de Direito.
E nos obrigam a olhar e a ponderar o panorama político partidário Português (que é feito por pessoas) muito de outra forma.
Não se vive sozinho e há trabalho a fazer.

Miguel Alvim é advogado