No século XVIII, inventou-se a única Utopia que não degenerou em barbárie e totalitarismo. Assentava ela, entre outras coisas, na essencial racionalidade do homem, prestes a triunfar sobre o emaranhado de superstições em que vivera enredado e confundido na idade infantil da Humanidade, e na sua essencial bondade, sufocada por séculos ou milénios de opressão e humilhação. Deste extraordinário optimismo antropológico resultou, muito naturalmente, a crença na possibilidade de os homens alcançarem a Verdade pelos seus próprios meios; a crença na possibilidade de se aperfeiçoarem ilimitadamente; e a crença, por conseguinte, na possibilidade de inaugurarem uma Era de Progresso contínuo e indefinido, até à alvorada de um Mundo plenamente humano, onde imperasse a tríade proclamada pela Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade, Fraternidade.

Destes três imperativos, o de mais rápida concretização era a Liberdade. Nem por isso foi fácil. Em 1820, levado por um entusiasmo juvenil pela nossa primeira revolução liberal, Garrett declarou logo que liberdade e igualdade eram as duas faces da mesma moeda, e que uma não podia existir sem a outra. Na década seguinte, Herculano, mais avisado, afirmou exactamente o contrário: quanto mais igualitária fosse uma sociedade, menos livres seriam os homens, porque só um espartilho legal imposto pelo Estado poderia igualizar o que era, por essência, diferente.

Todo o século XIX, em França e na Europa do Sul, estas duas opiniões – ou paixões – coexistiram em conflito mais ou menos aberto, mais ou menos violento. Porém, nenhuma delas foi proscrita. A coerência teórica exigiria que se reconhecesse que a Verdade só podia ser uma e igual para todos. Com efeito, não se admitiam divergências de racionalidade nem, por conseguinte, de lógica: a Razão, mediante a qual se investigava a Verdade a partir da experiência observável, era una e universal, era a mesma para toda a Humanidade. Mas admitiam-se divergências de opinião, desde logo porque a Verdade não se dava toda de uma só vez, resultava de um processo cumulativo de verdades parciais obrigatoriamente compatíveis entre si, e este processo estava sujeito a erros que o Progresso se encarregaria de ir corrigindo. Depois, as divergências de opinião eram livres porque até a asneira era livre…

O Liberalismo, uma corrente de pensamento autónoma saída da Revolução Francesa, que não partilhava do optimismo antropológico, racionalista e progressista da Democracia de inspiração Rousseauiana, impôs-se como um “pluralismo” (que nada tem a ver com relativismo) partindo da constatação de que há valores (verdades) que se contradizem e conflituam entre si (a igualdade e a liberdade, a justiça e a clemência, etc.), com uma única exigência e uma única implicação: a exigência de que não se utilizem argumentos dogmáticos – porque os dogmas, por definição, não se discutem; e a implicação de que, dadas as contradições inevitáveis entre valores igualmente estimáveis, e a decorrente impossibilidade de se chegar a uma Verdade una e universal, não haja a pretensão de os hierarquizar e impor coercivamente. Mas a generosidade liberal vai mais longe: as opiniões dogmáticas podem não ser respeitadas, mas são certamente admitidas.

Apesar de todas as vicissitudes e das gigantescas tragédias que marcaram o século XX, este “nosso modo de vida” ressuscitou depois de 1945 e sobreviveu até ao 11 de Setembro de 2001. Mais do que sobreviveu: a partir dos anos 60 do século passado, a intelectualidade de esquerda deu-lhe para desprezar como uma burguesisse “o nosso modo de vida” cuja preciosidade parece só descobrir quando o sente ameaçado por um abalo sísmico como estamos a sofrer com a mais recente barbaridade do fanatismo islâmico. Entretanto, “o nosso modo de vida” foi sendo, e continua a ser, agredido por intelectuais, académicos e diletantes que pregam o absoluto relativismo civilizacional, exigindo ao Ocidente que se ajoelhe perante exotismos que pouco ou nada acrescentaram nem acrescentam às criações mais sublimes da Humanidade, nem, mais próximo do tema que me ocupa, geraram o conceito do indivíduo livre e autónomo ou inventaram os Direitos do Homem que humanizaram as sociedades. Muito precisamente, “o nosso modo de vida” que tanto encarecemos é o modo de vida ocidental.

Define-o a liberdade, o pluralismo e a tolerância. Por uma trágica ironia, estes, que são dos nossos mais caros valores, são também as armas de que os nossos inimigos se servem para os destruírem. Estamos aqui perante uma situação típica da tragédia clássica: não há saída senão para a morte. Nas mesquitas inglesas, até há bem pouco tempo, pregava-se a jihad. Foi nos Estados Unidos que os assassinos de mais de 20.000 pessoas aprenderam a pilotar os aviões que lançaram contra as Torres Gémeas em 2001. Os novos bárbaros adquirem treino militar nos nossos territórios, e nas horas vagas circulam entre nós livremente, sem que os possamos reconhecer. Restrições razoáveis à imigração são claramente insuficientes para os detectar e deter.

Devemos então ir para além disso? Não, não devemos nem podemos. Pelo simples motivo de que uma Europa entrincheirada por trás dos muros de uma fortaleza não seria a Europa, seria um agregado de estados policiais com as ameias guarnecidas de metralhadoras e os cidadãos vigiados por polícias e censores. Uma tal Europa seria o aniquilamento do “nosso modo de vida” e a vitória dos nossos carrascos. Estão reunidos os elementos de um destino trágico, pré-inscrito nos pressupostos que regem a nossa vida individual e colectiva. Nada é eterno. Afinal, Roma também caiu perante os bárbaros.

A vida envolve riscos em qualquer circunstância. Podemos sempre agarrar-nos à ideia de que, agora, o risco é maior, e viver com ele. Rui Ramos, num artigo de ontem, diz-nos que a única solução consiste em combater a sério o jihadismo. Infelizmente não nos diz como. Bush falhou. Obama optou pelo discurso do Cairo e, salvo as televisões, ninguém ligou. E da Europa, que se manifesta enlutada, apregoa, fala, discute, não decide e não se compromete, nada há a esperar.