Deve haver uma razão qualquer para que o PS nutra tanta paixão pelas grandes obras públicas. Foi o TGV, o novo aeroporto de Lisboa e também o Parque Escolar. À época os socialistas acreditavam que a crise da dívida se resolvia gastando mais dinheiro. Felizmente para todos nós o Estado não aguentou tanto tempo e muitos dos disparates ficaram na gaveta impedindo males maiores. Até agora.

Como crê que a crise da dívida esteja controlada, e porque a prepotência não lhe permitiu aprender nada com a crise que provocou, o PS regressou ao tema do novo aeroporto de Lisboa. Novamente ouvimos a lengalenga do papel do Estado no crescimento económico e que Lisboa precisa de um aeroporto para dar vazão a tanto turista. A ideia subjacente é que o defensor do novo aeroporto tem visão a longo prazo e aqueles que criticam a opção não têm visão estratégica.

Eu compreenderia que os socialistas pugnassem por um forte investimento público em áreas vitais do Estado social. Na saúde, por exemplo: no pagamento aos médicos e enfermeiros; na boa manutenção dos hospitais; no pagamento a tempo e horas aos fornecedores. O Estado social é defender os mais desfavorecidos e tornar o acesso à saúde, e também à educação, acessível a toda a população. Podemos discordar quanto às políticas para o conseguir, mas compreenderia perfeitamente que, para um socialista, fosse dada preferência a estas áreas sobre todas as outras. No entanto, não é isso que sucede.

O PS continua a acreditar que o Estado deve ser o motor da economia e nesse sentido deve ter projectos para os quais canaliza o dinheiro que recebe. De preferência projectos que apontem para o futuro. E não deve haver nada mais futurista que um novo aeroporto em Lisboa. Os socialistas julgam que sem um novo aeroporto os turistas deixarão de visitar a capital. Ninguém pergunta por que motivo deixariam de o fazer se já vêm para o da Portela. Na verdade, um bom socialista chega a acreditar que com novas infra-estruturas serão ainda mais os turistas a visitar Lisboa. Nunca duvidam que assim seja. Não se questionam se o retorno de um investimento dessa envergadura é assim tão certo. Para um socialista não há condicionantes, o mundo não pula nem avança. Segue estático e estagnado como as suas crenças.

O certo é que há cada vez mais quem pense duas vezes antes de viajar de avião. Nunca gostei da personagem mas depois de Greta Thunberg muitas empresas optam por   reuniões por videoconferência em vez de forçarem os seus trabalhadores a percorrem o mundo para encontros de poucas horas e produtividade reduzida. A histeria colectiva à volta coronavírus pode ser exagerada mas vai ter efeitos económicos, nomeadamente no turismo e na forma como encaramos este fenómeno novo de todos podermos estar em todo o lugar e a toda a hora. A esta nova sensibilidade soma-se a tecnologia e o turismo virtual. Daqui a uns anos muitos de nós poderemos ir a Veneza sem que nos desloquemos a Veneza, o que resolverá o problema do excesso de gente na cidade. Visitarmos o Louvre sem irmos ao Louvre. Fazermos compras na Quinta Avenida, em Nova Iorque, sem nos metermos num avião. O turismo de massa vai ser virtual. Apenas os mais endinheirados se darão ao luxo de pagarem para se meterem no avião, se instalarem num hotel e viverem realmente os sítios que visitam. Milhões de pessoas não tiveram qualquer problema em trocar o contacto pessoal pela comunicação via WhatsApp, e sentem-se bem dessa forma. Farão o mesmo com as viagens. O turismo é uma arte, exige esforço e entrega, e muitos dos que simplesmente se deslocam não se importarão de o trocar por um jogo de turismo virtual.

A construção do novo aeroporto em Lisboa pode bem ser mais um sinal do desfasamento do socialismo com o mundo real. Ouvir Pedro Nuno Santos sobre a matéria é sintomático disso mesmo, porque damos por nós a ouvir um homem que vive num outro tempo, num tempo que passou por ele sem que ele se tenha dado conta, tão entretido que anda com os seus sonhos. Na verdade, os investimentos estatais pensados por quem não tem visão empresarial, nem perspectiva de negócio, peca por ser planeada para um mundo que passou. Não acompanha os pulos nem os avanços do mundo. Não acompanha as pessoas. Mas apesar disso os socialistas teimam. Eu percebo: é tentador fazer negócios sem que se arrisque o património próprio. Sem que se seja responsabilizado. Mesmo perante o que pode vir a ser o maior disparate do século.