A demissão de Henrique Martins – até à semana passada presidente dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde, que gerem a linha SNS24 – é péssima por duas razões: i) estamos a meio de uma pandemia; ii) ele agora tem mais tempo para se dedicar à poesia. Trata-se de um risco para a saúde pública dos portugueses e um ainda maior risco para a saúde mental dos familiares a quem ele vai declamar versos como estes. Lírica desta até pode ser menos contagiosa, mas os efeitos que deixa perduram no tempo. Não há aspirina que consiga apagar da cabeça a dor causada pela imagem do pavio incandescente de Henrique Martins.

Felizmente para todos, ao deixar o seu cargo, Henrique Martins não nos legou apenas a sua verve. O nosso trovador tratou também de informar que, nos últimos anos, geriu os SPMS com um orçamento cada vez mais reduzido. Passou de 90 milhões de euros em 2018 para 76 milhões em 2020 e explicou que foi por isso que a linha SNS24 falhou quando os portugueses, preocupados com o coronavírus, começaram a ligar mais do que é costume. Provou-se que, se o SNS24 estava preparado para alguma epidemia, era de Parkinson, em que as pessoas com sintomas não conseguiam ligar.

Imediatamente, gerou-se o costumeiro charivari nas redes sociais, indignadas com este aparente desinvestimento do Governo na Saúde, charivari que trataram de cavalgar demagogicamente, com o maniqueísmo simplista que as caracteriza. Como é óbvio, enquanto apreciador de cavalgadas demagógicas de charivari com jaez maniqueísta, preparei-me para me juntar às manifestações de repúdio.

Pensei fazê-lo através de chiste acintoso, coligindo, com sarcasmo, algumas propostas de auto-financiamento que o SNS24 podia adoptar. Ia sugerir, sei lá, que os telefonistas usassem os tempos mortos para fazer um biscate na Telepizza. Ou que aproveitassem as chamadas para fazer cross-selling: depois de despistarem os sintomas do utente, impingiam-lhe uma Bimby ou um conjunto de tupperwares. Mas a melhor recomendação é que transformassem o SNS24 num serviço reservado a assinantes. Vendiam uma assinatura e só quem se inscrevesse é que tinha acesso aos melhores conteúdos.

– O que o senhor deve fazer é tirar a temperatura e dirigir-se ao hospital se estiver acima dos trinta e.

– Trinta e quê?

– Lamento, mas essa informação é conteúdo premium. Para o desbloquear terá de subscrever o nosso pacote de luxo. Por 49,99 euros, tem acesso a todas as novidades sobre o Covid19. Se aderir já, beneficia da nossa campanha especial “Corpos de Verão”, com 7 dicas para evitar pé-de-atleta no ginásio.

E era assim que me preparava para fazer pouco do facto de um Governo da Esquerda que se preocupa imenso com a Saúde, estar-se a borrifar para a Saúde.

Eis senão quando, para me escangalhar a crónica, entra em cena o Polígrafo e a sua mania de corrigir aldrabices. Afinal, parece que apesar dos cortes no orçamento dos SPMS, até há mais dinheiro para a linha telefónica. Segundo as informações que o Polígrafo recolheu “o valor dedicado especificamente à Linha SNS 24 no âmbito do contrato [com a Altice] tem evoluído desta forma desde 2017. 2017: 2.163.358,69 euros, 2018: 7.447.101,71 euros; 2019: 8.266.844,00”.

Portanto, se quero gozar com um Governo que tomou posse com a economia a crescer depois da intervenção da troika, que reverteu cortes, repôs salários, e, mesmo assim, oferece um serviço pior, tenho de arranjar outro tema.

Vá lá que não tenho de ir longe: a mesma notícia do Polígrafo serve perfeitamente para vituperar. Não enxovalho o Governo por dar menos dinheiro ao SNS24 e por isso ter uma bodega de serviço, mas enxovalho o Governo por dar mais dinheiro ao SNS24 e mesmo assim ter uma bodega de serviço. Desinvestir na linha de apoio que ajuda a descongestionar as urgências hospitalares e dar um melhor serviço aos portugueses, deixando-a tão debilitada que não aguenta o início de uma crise de saúde pública, pode ser parvo. Mas investir nessa linha e mesmo assim tê-la tão debilitada que não aguenta o início de uma crise de saúde pública, é extraordinário. Fazer pior com mais não está ao alcance de qualquer um, é preciso um talento especial. Parabéns. O dinheiro não traz felicidade, mas às vezes traz aquela idiotice que faz com que a pessoa sorria de uma forma que até parece mesmo que está feliz, quando na realidade é só pateta.

Quando há falta de dinheiro e as coisas não funcionam, pode parecer que a culpa não é do Governo, é da pobreza do país. Agora, quando há dinheiro e mesmo assim as coisas não funcionam, não dá para esconder: é incompetência. Para a próxima, talvez seja melhor o Ministério da Saúde ser menos transparente com o Polígrafo. É que saiu pior a emenda que o soneto. E atenção que, à conta de Henrique Martins, a fasquia poética desta crónica está muito rasteirinha.

Se o SNS24 está carregadinho de dinheiro e mesmo assim não dá vazão às chamadas, imagine-se como não estaria há dois anos, quando estava mais pobre? A nossa sorte é este vírus não se chamar Covid17.

Mas nada temam! O Governo já está em cima do assunto e substituiu o bardo demitido por um ex-secretário de Estado que o PS tinha para lá, uma espécie de militante sobressalente para imprevistos deste género. Significa que em breve vamos deixar de ouvir falar do problema do SNS24. Não que o problema vá ser resolvido. A informação sobre o problema é que vai começar a escassear. Receber esclarecimentos sobre o SNS24 vai ser tão difícil como receber esclarecimentos do SNS24.

Entretanto, resolvi oferecer-me como voluntário para o SNS24. Sinto que é o meu dever enquanto cidadão. E tenho a impressão que será o local mais seguro do país durante os próximos tempos: pelos vistos, nunca está lá mais do que uma pessoa e os contactos com o exterior são limitados ao telefone. Quando calha atender, claro.