Durão Barroso passou ontem por Lisboa para lamentar o “glamour intelectual do pessimismo” que envolve a União Europeia. A UE tem, de facto, muitos motivos de ansiedade: o envelhecimento das populações, a desadaptação de vários dos seus países à globalização e à moeda única, a infiltração jihadista entre as populações imigradas, o imperialismo de Putin e até, segundo o antigo presidente da comissão europeia, a própria comissão europeia. Mas talvez nenhum problema seja tão fundamental como o que Barroso resumiu com a velha piada de Delors sobre o OPNI (Objecto Político Não Identificado), e que pode ser expresso desta maneira: a perda do sentido político da integração europeia.

Essa “despolitização” é visível em muitas análises correntes. Por exemplo, para muitos comentadores ingleses, a saída da Grécia do euro não devia ser um drama. O Reino Unido também saiu do sistema monetário europeu em 1992, e prosperou depois. Acontece que para os gregos, o euro não é apenas uma moeda a que a sua economia esteja mais ou menos adaptada. É um projecto político, um ideal: é a possibilidade de, um dia, viverem num país onde o Estado, dominado por interesses de todo o tipo (sindicais, empresariais, corporativos, clientelares, etc.), não abuse da moeda para servir esses interesses à custa de todos os outros cidadãos. É isso que os exercícios de análise económica não apanham, nem o discurso corrente da integração europeia, que reduz tudo a uma questão técnica: como conter, numa união monetária, economias divergentes e políticas contraditórias.

Convém voltar ao começo da história europeia. Durante a Guerra Fria, nos anos 50 e 60, a integração europeia teve um sentido político muito claro: perante os tanques soviéticos, representava a decisão dos países da Europa ocidental de defenderem a sua independência e um certo modo de vida em aliança com os EUA. Os membros da UE rejeitavam, quer a sovietização, quer a “finlandização”. Eram democracias liberais com economias sociais de mercado, governadas por sociais democratas ou por conservadores liberais de várias famílias (tories ingleses, gaullistas franceses, ou democrata-cristãos alemães e italianos). Mas não lhes bastava conservarem discretamente as suas democracias e pluralismos domésticos, como a Finlândia desse tempo, em troca da limitação da sua política externa: pretendiam afirmar a democracia pluralista como um princípio universal.

A integração europeia expressava essa política e essa vontade. Por isso, na década de 1970 e outra vez na década de 1990, muitos países a emergir de ditaduras procuraram a integração europeia e a aliança com os EUA. Na Grécia ou em Portugal, na Polónia ou na República Checa, a UE e a NATO foram entendidas como estruturas internacionais de suporte para nações decididas a escapar de uma cultura de guerra civil e de repressão. Sim, todos procuravam subsídios e mercados, mas também a segurança de sociedades liberais bem ordenadas, onde a liberdade fosse a experiência de cidadãos autónomos perante um Estado subsidiário.

Depois do “fim da história”, essa clareza perdeu-se. A integração europeia, a partir da década de 1990, começou a ser vendida como uma fatalidade histórica, um fim em si mesmo, acima de quaisquer circunstâncias. Os raciocínios reduziram-se a um encadeamento mecânico: o mercado único exigia a moeda única, e a moeda única exigia o governo único. Os objectivos, para evitar fricções ideológicas, tornaram-se vagos, ao nível do concurso de beleza: paz e prosperidade. A UE aspirava aparentemente a ser uma estrutura sem impacto sobre o conteúdo, uma espécie de Nações Unidas em que a Líbia de Khadafi pudesse presidir à comissão de direitos humanos. Ainda houve alguma reacção contra a ascensão de Haider na Áustria no ano 2000, mas ultimamente tolerou-se a “democracia dirigida” da Hungria e a zona euro acolheu, durante anos, a indisciplina financeira da Grécia. Foi isto que convenceu o Syriza de que podia obrigar os contribuintes alemães a pagar uma revolução chavista no Mediterrâneo.

O mal estar resultante deste esvaziamento político tem sido interpretado como pretexto de ainda mais “união”. Mas se a UE tem futuro, não está na acumulação de “uniões”, como se a asfixia burocrática  das soberanias nacionais fosse a sua razão de ser, mas na clarificação do sentido político da integração: a afirmação no continente da democracia liberal e da economia de mercado, e a sua defesa através da aliança histórica com os EUA. A União Europeia, se tem algum sentido, é o que lhe pode dar esta opção política.

Não se trata de uma mera questão de retórica, como o mostram as crises da Grécia e da Ucrânia, em que, apesar de tudo, reemergiu alguma da inspiração política original da integração europeia: na Grécia, os chavistas do Syriza tiveram de aceitar o princípio dos mercados abertos e concorrenciais e das políticas públicas sustentáveis; e na Ucrânia, a França e a Alemanha entenderam-se para enfrentar finalmente o expansionismo de Putin. O Objecto Político passou a estar um pouco mais identificado. Como tal, não será do gosto de todos, mas o que não tem inimigos, também não tem amigos.