1 Há sempre aquele momento em que a realidade é mais forte do que a propaganda. No caso da narrativa do sucesso do combate de Portugal à pandemia o dia 18 de junho foi esse momento. Quando o Observador noticiou, citando dados da Comissão Europeia, que seis países da União Europeia (Áustria, Dinamarca, Lituânia, Letónia e Chipre) não aceitaram reabrir as fronteiras com Portugal e outros quatro (República Checa, Grécia, Bulgária e Estónia) levantaram restrições à entrada de portugueses nos seus territórios, descobriu-se que, afinal, algo ia mal no reino do “milagre” lusitano — uma classificação dúbia que se deve ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Aliás, quer as ameaças do ministro Augusto Santos Silva de aplicar o princípio da reciprocidade e fechar as fronteiras portugueses a esses países, quer o ataque pouco diplomático de António Costa a esses 10 países (só faltou dizer que estavam a falsificar os dados dos infetados) revela bem a dificuldade do Governo em lidar com a realidade dos factos.

Obviamente que não estamos numa situação catastrófica, apesar de sermos o segundo país com pior rácio de novos infectados entre os 10 países europeus com mais infetados — acima de nós só está a Suécia que não seguiu uma política de confinamento extremo. Ou seja, entre os piores, somos o segundo pior no período entre 14 e 20 de junho, segundo dados levantados pela Lusa de dados oficiais desses 10 países e do Centro Europeu de Controlo de Doenças. O Expresso, contudo, afirma mesmo que lideramos a tabela porque a Suécia não reporta novos casos desde 6.ª feira.

Verdade se diga que esta péssima posição não é de agora. Ao contrário de outros países com uma dimensão semelhante à nossa, como a Áustria, a República Checa ou a Hungria, entre outros, Portugal tem tido uma média diária consistente entre os 263 de novos casos desde o dia 9 maio, não tendo conseguido baixar essa média. Só na última semana, tivemos uma média de 340 novas infeções.

É precisamente devido a esta consistentes más notícias — que apenas são contrabalançadas com uma igualmente consistente redução da taxa da letalidade e dos internamentos — que não faz sentido a narrativa do sucesso que o Presidente Marcelo e o primeiro-ministro António Costa insistem em fazer.

2 Em primeiro lugar, porque não tem qualquer adesão à realidade. Em nenhuma fase do combate à pandemia, Portugal foi um caso de desastre (como aconteceu em Itália e Espanha e continua a acontecer no Reino Unido e Estados Unidos) mas também não representa o paradigma do sucesso.

Se seguirmos o ranking da Worldometer, e contando sempre com o Reino Unido, constatamos os seguintes factos:

  • Portugal ocupa o 10.º lugar da União Europeia (UE) no indicador de mortes por cada milhão de habitantes;
  • Somos o 8.º país da UE em termos de totais de novos casos por um milhão de habitantes;
  • Portugal é igualmente o 8.º país por 1 milhão de habitantes que mais testa;
  • Em termos de testes por 1 milhão de habitantes ocupamos a 8.º posição entre os países da UE .

Se analisamos os dados do Centro Europeu de Controlo de Doenças por 100 mil habitantes, os resultados não mudam muito: 9.º lugar no número de casos e 10.º lugar no número total de mortes.

A taxa de letalidade é o único indicador em que Portugal está bem colocado: ligeiramente acima dos 4%, o que compara com os 5,3% globais.

Portanto, a não ser que a definição de sucesso de Marcelo Rebelo de Sousa e de António Costa seja ‘poucochinha’ (e no caso de Costa já sabemos que assim é), estar em 9.º ou 10.º não significa estar sequer no pódio. Significa estar ligeiramente abaixo da média da UE. O que aqui é bom mas não é caso para andar a cantar vitória aos quatro ventos.

3 A questão da testagem, que já chegou a merecer aos ministros de António Costa uma espécie de medalha de ouro auto-atribuída, é particularmente irónica. Em Março, por exemplo, o Governo desvalorizava totalmente a política do “testar, testar, testar” recomendada pela Organização Mundial de Saúde por permitir identificar e isolar os infetados. E desvalorizava porque era óbvio que não tinha comprado antecipadamente os kits e os materiais necessários para a realização de testes mas essa realidade foi escondida com a narrativa de que “os testes são feitos a quem precisa deles”, dizia a ministra Mariana Vieira da Silva.

A verdade dos factos era então clara: Portugal era dos países que menos testava a população, com 985 testes por cada milhão de habitantes à data de 24 de março. Muito, mas mesmo muito longe da Islândia que realizava então 26.762 testes por cada milhão e da Noruega (6.429 testes por milhão de habitante), Coreia do Sul (6.182) e a Austrália (4.294). Se quiséssemos aplicar a ideia de hoje de António Costa sobre os testes (“países com um terço ou metade dos testes de Portugal não se podem comparar connosco”), poderíamos dizer que em março e numa parte do mês de Abril que a situação epidemiológica portuguesa era fake.

Hoje com uma verdadeira e útil parceria público-privada entre a comunidade científica e o setor privado farmacêutico, Portugal conseguiu aumentar a sua capacidade de testagem e tem um rácio de 102.684 testes por cada milhão de habitantes.

4 Por outro lado, a narrativa do sucesso/milagre português de Marcelo e de António Costa acabou por passar uma mensagem de facilitismo junto da comunidade, sinalizando que o pior já tinha passado. As idas à praia para inaugurar a época balnear, as presenças constantes do Presidente e do primeiro-ministro em espetáculos ao vivo que promovem ajuntamentos e a promoção intensiva para que as pessoas saiam de casa — todas elas são compreensíveis à luz da promoção do dinamismo económico. Mas acabam por ser incompreensíveis quando sabemos que desde o dia 11 de maio, quando atingimos 98 novos casos diários, que a média diária dos novos casos é de 263 infetados, com destaque fortíssimo para a região de Lisboa e Vale do Tejo.

Mais difícil de perceber tem sido a reação lenta e pouco eficaz do Governo na zona da capital. Criou a 10 de junho um gabinete de crise para a região de Lisboa (denominado Gabinete de Intervenção para Região de Lisboa de Vale do Tejo) mas passados 12 dias não se conhece publicamente nenhuma ação — precisamente aquilo que deve definir um gabinete de intervenção.

Para piorar a situação de inércia, e num momento em que a própria ministra da Saúde admite que as forças de combate de primeira linha não estão a conseguir “quebrar as cadeias de transmissão” do novo coronavírus na região de Lisboa e Vale do Tejo, é quase chocante ver as mais altas figuras do Estado português (Presidente da República, primeiro-ministro e presidente da Assembleia da República), acompanhadas dos ministros da Economia, da Saúde e da Educação, num exercício de auto-elogio público sobre o caso de sucesso de Portugal a propósito da nomeação de Lisboa como a cidade anfitriã da Final Eight da Liga dos Campeões.

Compreende-se que a escolha de Lisboa para organizar um das provas de futebol mais mediáticas do mundo tem significado para reforçar a imagem de Portugal como destino turístico — e logo durante o mês de Agosto (a prova realiza-se entre 12 e 23 de agosto) — mas a atenção dada é completamente desproporcional e, mais do que isso, claramente provinciana. Nem a UEFA é um Estado — apesar de às vezes querer parecer com o seu poder multimilionário — nem os representantes máximo do poder político estão em condições de promover grandes festas quando o seu foco essencial deve estar concentrado no combate à pandemia e na recuperação da economia.

5

Resumindo e concluindo: não só António Costa tem de arrepiar caminho e agir rapidamente na região de Lisboa, deixando-se de discursos de propaganda. Marcelo Rebelo de Sousa, por seu lado, tem a obrigação de exigir muito mais ao Governo — o que raramente fez ao longo deste seu primeiro mandato.

Ainda por mais quando os dados de outras regiões do país revelam que as novas infeções estão também a aumentar. Veja-se o caso da região centro que só na semana passada teve o dobro dos casos das últimas cinco semanas. No Algarve e no Alentejo, as novas infeções também dispararam — e é expectável que as viagens das pontes de 10 e 11 de junho promovam um aumento ainda mais na próxima semana.

Deixemos, portanto, as narrativas do sucesso inexistente de lado e concentremo-nos no trabalho de encontrar soluções para combater a pandemia com eficácia. E uma dessas soluções possíveis pode ser uma abordagem mais agressiva em Lisboa, não só deixando a região em estado de calamidade (enquanto que o resto do país abandona esse estado), como também aplicando cercas sanitárias em freguesias ou bairros que justifiquem tal medida.

Se António Costa jurou em maio que não hesitaria em dar passos atrás se a situação assim o justificasse, está na altura de o provar — em vez de enterrar a cabeça na areia, como é típico dos socialistas quando se deparam com problemas difíceis que exigem decisões corajosas.