Foi este o conto de fadas apresentado na rentrée política pela líder do Bloco de Esquerda, Catarina Martins. Muito resumidamente é a história de como a nacionalização de toda a banca “não é um papão” na voz da coordenadora do partido que agora revela que “o programa do Bloco é social-democrata”. O que a uma distância tão curta das eleições obriga a fazer um ponto de situação sobre a localização exacta dos partidos portugueses neste momento. Portanto, o Bloco de Esquerda saltitou da esquerda radical para o lado da social-democracia. O que vem mesmo a calhar porque o PSD, agora que está do lado esquerdo, tinha deixado o lugar a ganhar teias de aranha. O CDS continua em busca do centro da política portuguesa, jornada para a qual consegue angariar ainda menos gente que a que arriscou a viagem ao centro da Terra na aventura de Júlio Verne. O PCP mantém-se firme em Petrogrado no ano de 1917. E o omnipresente PS está, como é bom de ver, em todo o lado. Sendo que a omnipotência chegará muito provavelmente a 6 de outubro. Deus juntaria a estas capacidades a omnisciência, mas António Costa não. Como voltou a ser evidente após a última polémica com Sócrates, Costa não só não precisa de saber tudo como continua a dar-lhe imenso jeito não ter sabido de nada.

E não olvidemos o PAN, que segundo uma notícia recente promete bater-se pela criação de um Serviço Nacional de Saúde para cães e gatos. Considero uma ideia estupenda. Incluir cães e gatos no SNS reduziria drasticamente e de um dia para o outro as listas de espera nos hospitais:

– O que a traz cá hoje, dona Deolinda?
– Venho ser operada às cataratas, Doutora.
– Mas a sua operação é daqui a 6 anos, dona Deolinda.
– Como assim? Disseram-me que o tempo de espera era só de 1 ano.
– E é, dona Deolinda, mas é 1 ano em anos de cão. O que equivale a 7 anos humanos.
– Ah. E se eu falecer entretanto?
– Então mas a dona Deolinda não tem ainda 4 vidas?
– Não, isso é o meu gato.
– Pois é. Confusão minha. Olhe, não há-de ser nada. Adeusinho e até breve.

Voltando ao Papão Saltarico, é bastante evidente que esta fábula do Bloco de Esquerda vai buscar muita inspiração ao clássico Capuchinho Vermelho. A começar obviamente pela cor do capuz, muito do agrado do partido. Mas além desse pormenor também há um lobo e uma avozinha. A diferença é que nesta nova história o lobo bloquista, em vez de comer a avozinha, tira o que a avozinha burguesa tem para comer e dá a quem ele acha que mais precisa. Que pouco surpreendentemente é ele próprio e a sua alcateia. O lobo redistribui assim a paparoca, mas não sem antes retirar a fofinha pele de cordeiro que envergava, aspecto em que esta lenda vai buscar inspiração a outra ficção também bem popular.

Mas a própria Capuchinho Vermelho é muito desvalorizada no novo conto de Catarina Martins. Afinal a protagonista da narrativa tradicional transporta bolos e vinho para a avó, afrontando ostensivamente o benévolo ímpeto proibicionista do Bloco de Esquerda, que tomando posse administrativa dos nossos organismos nos salvará a todos da dupla de serial killers Açúcar & Álcool. Além disso, a Capuchinho tem o desplante de atravessar todo o bosque sem sequer passar no acampamento de verão do Bloco. E como se não bastasse não pára para protestar contra uma única mina de lítio. Desta forma não admira que a Capuchinho Vermelho seja castigada com a quase omissão na lenda do Papão Saltarico. Enfim, não quero dar spoilers, mas ainda assim adianto que, como afinal de contas isto é uma história do Bloco de Esquerda, no fim a heroína é despenalizada.