O discurso político vive uma polarização sem precedentes no passado recente, mas dentro deste fenómeno subsiste um sintoma antigo, a subalternização da direita ao discurso da esquerda. Diminuindo-se à condição de mero contraditório do discurso da esquerda moderna, a direita deixa-se levar numa sinfonia que não conduz. À boleia desta crise existencial, tomando o medo do desconhecido, trata as novas causas como sintomas da velha doença de uma pretensa esquerda radicalizada. Ainda mais e por tomar essa atitude face ao novo mundo, a esquerda é o juiz do tribunal da história que a própria criou, acantonando a direita ao lugar de um eterno réu.

Sim, ao passo que a esquerda tomou como certa a democracia liberal e o mercado livre, a direita, por sua vez, estigmatiza o ambiente e o bem-estar dos animais, os direitos dos homossexuais, das minorias e das mulheres, a epidemia da saúde mental, as drogas recreativas, a cultura e as artes e o próprio estilo tornaram-se pontos de ruptura imediatos. Quando se imaginava que evoluísse, entrincheirou-se, teorizando conspirações megalómanas à escala global, procurando purgar das suas fileiras discursos desviantes, acusando-os de cedência. Ora, os resultados estão à vista e a condenação de um espectro político — a direita — a um mero papel reactivo é, deste modo, inevitável e, dizemos mais, insustentável.

Aos jovens, aburguesados e instruídos pela liberdade económica que a direita edificou e pelo estado social que esta patrocinou, este posicionamento diz-lhes muito pouco. Some-se a isso um mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo, à sombra de uma evolução tecnológica exponencial com consequências imprevistas, de um processo de digitalização acelerado, do advento da inteligência artificial e do trabalho remoto, da extinção e criação de dezenas de profissões e o divórcio entre crenças é indubitável: e assim foge mais uma geração à direita.

Alguém imagina um dos líderes partidários à direita do PS condenar um industrial que polui um rio, dissecar os abusos laborais e os assédios moral e sexual que a ACT vai encontrando ou barafustar contra casos de violência policial? E sobre esta legislação laboral que não serve à gig economy em que se trabalha por projectos? E este sistema de ensino, do pré-escolar à universidade, que é uma relíquia de outros tempos, perto de implodir face a desafios de curto-prazo?

A inércia, que em partidos com visão levaria à revolta dos fiéis, manifesta-se em preocupações distintas. Não só se constata a abstinência de uma visão de futuro em matérias como a economia, o ensino ou a saúde, como se deixa ao arbítrio do que se toma como bandeiras da esquerda, ansiando confrontá-las em todos os terrenos. O corolário disto é uma bipolarização em que os decibéis do discurso se sobrepõem à densidade, em que as notícias falsas baralham o que de si já não é claro e em que qualquer demonstração de serenidade ou moderação é tomada como uma perigosa concessão ao inimigo.

A outra consequência é a ultramontanização da militância da sinistra, arredada da modernidade e agarrada a chavões como o “marxismo cultural” e a “hegemonia da esquerda radical” para justificar a sua defensa intransigente da família tradicional e da cultura ocidental, assente no cristianismo e ameaçada por fenómenos como a erosão da religiosidade ou a perda de valores. A verdade é que a ascensão das famílias monoparentais e/ou homossexuais e da casta de jovens desengravatados que enche os bares do centro, sexualmente abertos e pouco tementes a Deus, em nada dados às autoridades convencionais e mais americanos que portugueses, que ouvem hip-hop e comem hambúrgueres, fazem binge no Netflix e conheceram o(a) parceiro(a) no Instagram, entre muitos outros lugares comuns, foram uma criação dessa mesma direita, ou melhor, do modelo económico e social por ela corroborado.

O capitalismo e a globalização permitiram a esta geração um aconchego material, um nível de instrução e um cosmopolitismo inéditos no passado, enquanto a democracia liberal lhes garantiu o direito de pensarem e fazerem como bem entenderem, acabando eles a pensar e a fazer muito do contrário do que a tradição impunha e os bons costumes exigiam. Este é o colossal paradoxo da direita contemporânea e ela, antes de resolver os problemas do país, tem de se resolver das suas crises existenciais.