Esta semana soubemos que os EUA entraram em recessão técnica com dois trimestres de variação em cadeia negativa do PIB: -1,6% no primeiro trimestre de 2022 e -0,9% no segundo trimestre de 2022. Ao mesmo tempo, o crescimento do PIB acelerou na Zona Euro de 0,5% para 0,7%, acima das expetativas da maioria dos analistas. Com a inflação em valores máximos de décadas nas duas regiões, parece paradoxal que a Reserva Federal Americana seja mais ativa a aumentar as suas taxas diretoras, do que o BCE que apenas em julho o começou a fazer.

Nos próximos meses é possível que o BCE acelere a normalização das taxas de juro, afinal a decisão de aumentar 50 pontos base em julho foi superior ao que tinha sido pré-anunciado. Nos mercados, aumentam as expetativas de que, em setembro, o BCE volte a aumentar 50 pontos base. Por outro lado, nos Estados Unidos, à medida que as taxas de juro se aproximam do seu valor médio de longo prazo será menos urgente continuar a subi-las tão rapidamente. Ainda assim, a diferença entre a postura dos dois bancos centrais pode denotar riscos muito diferentes para a evolução da economia nas duas regiões, no segundo semestre.

Por um lado, embora os Estados Unidos se encontrem em recessão técnica, a taxa de desemprego em junho foi de 3,6%, próximos do seu valor mínimo histórico. Os mercados financeiros, que sofreram quedas muito significativas desde o início do ano, estabilizaram no final do segundo semestre e recuperaram em julho. Os riscos para a economia não desapareceram: seja os que estão associados à inflação elevada ou à deterioração económica global, não só por via da crise energética, mas também pela possível desaceleração na China. Mas a economia americana é tipicamente muito flexível e recupera em geral rapidamente das recessões.

Já na Zona Euro, a aceleração no segundo trimestre deve-se à recuperação nos países que tipicamente beneficiam mais do turismo, especialmente a Itália e a Espanha, e da reabertura da economia francesa, que tinha contraído no primeiro trimestre devido à vaga de covid. Mais preocupante é ver que a Alemanha, que tem sido o motor de crescimento da Europa desde os anos 2000, estagnou no segundo semestre. É também a economia que poderá sofrer mais com os cortes de gás que têm vindo a ser realizados pela Rússia. Outro sinal preocupante são os índices de atividade PMI para a zona euro apontarem para uma contração da atividade em julho, o que, se perdurar, poderá sinalizar uma desaceleração ou até contração no terceiro trimestre.

A segunda metade do ano deverá aproximar as taxas diretoras da Reserva Federal e do BCE. No entanto, uma política de normalização mais cautelosa na Europa poderá ser adequada, considerando que os riscos para o crescimento económico que se vislumbram podem tornar a situação da Europa mais frágil do que a dos Estados Unidos, apesar de os dados desta semana parecerem indicar o contrário.

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