Quando eu era pequeno, Gary Lineker era um dos meus jogadores preferidos. A origem do meu fascínio está no Mundial do México, em que a Inglaterra ficou no mesmo grupo de Portugal. O então avançado do Everton não marcou contra a selecção (ganhámos por 1-0 com um golo de Carlos Manuel), mas fez um “hat-trick” contra a Polónia. Foi a primeira vez que eu ouvi a expressão “hat-trick” e o meu tio, grande enciclopédia ambulante do futebol, explicou-me o que era isso e que ao avançado inglês tinha faltado um golo de cabeça para que o “hat-trick” fosse perfeito (marcou dois com o pé direito e um com o pé esquerdo). Ainda hoje, quando oiço a expressão “hat-trick” completo-a mentalmente com um “de Gary Lineker.” Só que nenhum dos golos que Lineker marcou ao longo da carreira, e nem sequer o seu imaculado registo disciplinar (nunca viu um cartão amarelo), é tão memorável quanto a sua imortal frase sobre a Alemanha. Toda a gente a conhece assim: “no futebol são onze contra onze e no final ganha a Alemanha.”

Tal como Neo, o personagem crístico de “Matrix”, dobrava colheres com a mente e impedia que as balas o atingissem, uma boa frase tem o dom semelhante de moldar a realidade ou, pelo menos, de alterar a nossa percepção sobre essa realidade. Se Gary Lineker tivesse dito “no futebol são onze contra onze e no fim perde a Inglaterra” a frase teria sido mais exacta. Os ingleses não vencem uma competição há 60 anos e da última vez que chegaram a umas meias-finais Renato Sanches ainda não tinha nascido e João Mário ainda não tinha a dentição definitiva. Só que uma boa frase é mais do que uma síntese feliz da realidade. O que a boa frase faz é pegar numa parcela dessa realidade, distorcê-la ligeiramente e, finalmente, impor-se a essa realidade. Os alemães ganham muito? É verdade. Têm quatro campeonatos do mundo e três campeonatos da Europa, mas a última vez que foram campeões europeus foi há vinte anos. Lembro que há vinte anos Renato Sanches ainda não tinha nascido e João Mário ainda não tinha a dentição definitiva. De então para cá, conquistaram um título, o de campeões mundiais, em 2014, depois de terem realizado aquela que provavelmente foi a melhor exibição de sempre de uma equipa num grande torneio, com a demolição do escrete pentecostal de Scolari. Nestes vinte anos, sofreram humilhações (Mundial 98, Euro 2000 e Euro 2004), perderam finais (Mundial 2002 – à qual chegaram com um futebol que faz o desta nossa selecção parecer ouro – e Euro 2008) e, facto curioso, tornaram-se especialistas em chegar às meias-finais e… perder. Aconteceu no Mundial de 2006, com aquele golo de Fabio “Tardelli” Grosso, aconteceu no Mundial de 2010, com uma cabeçada de Puyol, aconteceu no Euro 2012, com dois golos de Balotelli e aconteceu ontem, abatidos graças uma inépcia defensiva incomum e ao pé quente de Antoine Griezmann.

E, no entanto, a frase de Lineker resiste a todos os desmentidos da realidade. Mesmo hoje, cá estou eu a lembrá-la. Outros já o fizeram e continuarão a fazê-lo qualquer que seja o resultado. A federação alemã devia estampar a frase de Lineker nas camisolas, adoptá-la como lema. Talvez assim, oficial e solene, acabássemos por nos esquecer dela.

Já agora

Como um cachorrinho a querer impor respeito ao cãozarrão, a França entrou no jogo a ladrar alto. O cão grande olhou com curiosidade para a criatura que não o largava e, ao fim de vinte minutos, a ordem estava reposta, com o cão grande a mandar no quintal e o cachorrinho a sair da casota a medo não fosse levar uma dentada fatal. Mas afinal foi o cachorrinho a ferrar os dentes. O erro do grandalhão foi pensar que aquilo não era nada. Na segunda parte continuou mandão, embora um pouco menos, rosnou, ameaçou, mas foi o cachorrinho a dar nova dentada e então ficou claro que o cão grande bem que queria morder só que já não era capaz. Pode ser que no domingo a história se repita e o cão grande tenha de sair do estádio com o rabinho entre as pernas.