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O poder mobilizador da rejeição /premium

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Um discurso negativo, de rejeição de alguma coisa, independentemente de ser factual ou inventado, tem muito mais impacto junto das populações que um discurso positivo, construtivo ou inclusivo.

Preparava-me para escrever sobre Espanha e a normalização do Vox, o novo partido político de extrema-direita do país vizinho, pelos líderes da direita moderada – o Partido Popular e os Ciudadanos –, quando me apercebi que há um tema mais abrangente e premente para tratar: o chamado “poder mobilizador da rejeição”.

Roubei descaradamente a expressão a um relatório do European Council on Foreign Relations, mas o meu encontro com o conceito é muito mais antigo, de quando a ideia de nacionalismos extremistas na Europa estava a dar os primeiros passos, longe dos holofotes da comunicação. Quer dizer mais ou menos isto: um discurso negativo, de rejeição de alguma coisa, independentemente de ser factual ou inventado, tem muito mais impacto junto das populações que um discurso positivo, construtivo ou inclusivo. Este fenómeno não só não é novo como quem estuda estas coisas diz que é quase infalível.

Pois é. A luta pelos ideais democráticos, liberais e pluralistas é desleal. Porque os intolerantes, antidemocráticos, antipluralistas, antiliberais, antieuropeus não estão obrigados aos mesmos padrões de qualidade (leia-se rigor) no debate que nós.

Ora, como se tem vindo a verificar nos últimos anos, este problema tende a agravar-se por duas razões. A primeira é que apesar das formas que usamos para distinguir partidos e ideologias políticas, grosso modo a divisão simplista esquerda-direita, estarem ultrapassadas, elas estão bem presentes no imaginário coletivo. Hoje seria muito mais útil pensar que, quer a direita, quer a esquerda, estão também divididas entre moderados e extremistas e que, muitas vezes, as ideias e programas de moderados entre si e extremistas entre si (independentemente da inclinação para um dos lados do espetro político) estão muito mais próximas.

Ora, quando se escreve ou se lê um artigo de opinião, se critica, por hipótese, a extrema direita – no caso concreto da Espanha, a importância crescente do novo partido de extrema direita, o Vox – há sempre críticas por não se atacar igualmente a extrema esquerda, ainda que não venha minimamente a propósito. O mesmo se passa quando se chama a atenção para o perigo da extrema esquerda, quando o contexto é adequado. Escusado será dizer que quem ganha são os extremistas porque, com estas posições, os moderados estão a fazer o jogo deles: digladiar-se por rótulos cada vez mais insignificantes em vez de pensar o que fazer para que os extremistas parem de aumentar a sua influência.

A segunda – e aqui a manifestação espanhola também é um bom exemplo – é que os partidos políticos democráticos estão cada vez mais interessados em ganhar dividendos políticos do que propriamente na manutenção da democracia liberal. Daí que “normalizem” estes partidos e movimentos (i.e., os tratem como tivessem exatamente a mesma legitimidade que um partido democrático em contexto de democracia). Na prática, o PP e o Ciudadanos aceitaram ao seu lado o Vox na manifestação anti-PSOE sem piscarem os olhos. Deixaram-se fotografar como uma família política unida e feliz. Mas a verdade é que os três partidos podem ter um objetivo comum, entretanto alcançado, ironicamente, com a ajuda dos independentistas da Catalunha: provocar eleições antecipadas. E podem ter uma denominação comum de “direita”. No entanto, as ideias que têm para Espanha são tão diferentes que, há meia dúzia de anos, uma imagem destas seria impensável.

Finalizo com duas notas, interligadas. Os partidos extremistas de esquerda e de direita têm objetivos políticos diferentes. Querem transformar aspetos diferentes das nossas sociedades. Mas têm pelo menos dois elementos em comum: têm-se empenhado (com algum sucesso) em extremar o discurso político e social, o que implica, muitas vezes, pôr democratas contra democratas; e partilham de um sentimento antieuropeu que, tudo indica, já vai ter consequências políticas nas eleições europeias de maio de 2019, com uma subida exponencial do número de deputados europeus que querem uma Europa sem instituições supranacionais – uma “Europa de Nações” para usar a sua própria expressão. O número de deputados europeus antieuropeístas deverá ultrapassar um terço dos assentos parlamentares, numa estimativa conservadora.

É isso que queremos? Eu não. Daí que vos lembre do “poder mobilizador da rejeição”. O extremismo parte em vantagem, o que aumenta consideravelmente as responsabilidades que têm os partidos políticos tradicionais e os cidadãos que acreditam na democracia e na moderação. Para não deixar que os gritos dos outros nos impeçam de continuar a disfrutar de sociedades livres que os nossos antepassados (uns mais longínquos que outros) nos deixaram, com a obrigação implícita de preservar.

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