Rádio Observador

Crónica

O ponto de vista do utilizador

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A ideia de que os utilizadores têm um ponto de vista especial está ligada à ideia de que quanto mais próximo estivermos de uma coisa melhor a conhecemos. Não é bem assim.

“Conheço ovos moles,” declarou a grande autora clássica, “embora do ponto de vista do utilizador.” Com isso admitia que não sabia fazer ovos moles, o que é decente; mas pretendia algum conhecimento, o que não é; e mais propriamente o conhecimento que a ingestão reiterada de ovos moles lhe daria. O utilizador reclama com efeito muitas vezes um conhecimento íntimo daquilo de que está a falar. Imagina-se que utilizar uma máquina, ir a Paris, comer ovos moles, nos faz conhecer respectivamente, a máquina, Paris, os ovos.

Que conhecimento no entanto nos dá usar uma máquina acerca da máquina, e comer ovos acerca dos ovos, e ir a Paris acerca de Paris? Usar uma máquina não requer que se saiba como a máquina funciona. Desconhecemos o funcionamento da maior parte das máquinas que usamos, e até das que usamos muito bem. Um artista do martelo pneumático não tem que ter grandes ideias sobre o que é um martelo pneumático. O ponto de vista do utilizador insinua conhecimento e impressiona; mas o mais impressionante é que não exige conhecimento.

A ideia de que os utilizadores têm um ponto de vista especial está ligada à ideia de que quanto mais próximo estivermos de uma coisa melhor a conhecemos. Quem já esteve em Paris, diz-se, conhece Paris melhor do que quem nunca lá pôs os pés; e quem mexe num martelo pneumático sabe coisas vedadas a quem nunca lhe tocou; sem falar de quem ingere ovos moles, que lhe ficarão extraordinariamente próximos.

Levantam-se no entanto duas dificuldades relacionadas: a primeira é a de que a intimidade com uma coisa não sugere que o nosso ponto de vista acerca dela seja necessariamente enriquecido. Não é invulgar alguém ir a Paris, ou até ser de Paris, e nós ficarmos pouco impressionados com o que lhe terá aproveitado; deputados e pescadores são frequentemente acusados de confundir os países, ou de ignorar os hábitos conubiais das fanecas.

Mas a segunda dificuldade é a maior: não conhecemos do ponto de vista do utilizador algumas das coisas de que estamos mais próximos. Dizer que me conheço a mim próprio do ponto de vista do utilizador parece quase um erro de gramática. Eu não me uso, não me visito e não me como. Não sou o melhor operador de mim próprio, nem um artista a lidar comigo. Também não tenho de mim próprio o conhecimento de quem sabe como se fazem ovos moles, ou de quem inventou o martelo pneumático: não me ocorre imaginar-me como um produto ou um aparelho. E no entanto estou muito perto de mim próprio: muito mais que o artista do seu martelo, e a apreciadora dos seus ovos moles. É talvez porque estou tão perto de mim próprio que nunca direi que me conheço do ponto de vista do utilizador.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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