Para a minha geração, nascida em democracia, para quem a queda U.R.S.S. é apenas uma vaga recordação da infância e a guerra na Jugoslávia um acontecimento confuso que preocupava os adultos, a democracia é um dado adquirido. Muitas vezes, demasiadas, esquecemo-nos que a democracia que conhecemos não só é  recente como está longe de ser um sistema universal. De facto, só no meu tempo de vida passou a democracia a ser a regra na Europa, sendo ainda hoje desconhecida em boa parte do mundo.

E o facto de darmos a democracia por adquirida leva-nos muitas vezes a acreditar que ela é indestrutível, que é inexorável, que é inevitável. Temos a crença de que qualquer ameaça à democracia acabará, inevitavelmente, derrotada e condenada ao caixote de lixo da História. Infelizmente essa mesma História prova que esta crença não é justificada. Basta um rápido olhar para o tal caixote de lixo para lá vermos impérios, regimes e nações que se consideravam eternos e que hoje só vivem nos livros (e alguns nem isso).

Talvez por isso não demos a devida atenção à crise que a democracia atravessa no Ocidente em geral, e em Portugal em particular. Pode haver mais ou menos revolta com o regime, mas damos por adquirido que ele não cai.

A única coisa que parece realmente assustar é o chamado populismo. E assusta porque faz um discurso contra o sistema. Não se limita a denunciar os problemas, promove um novo sistema. E  a simples ideia de que possa haver outro sistema, que não a democracia que conhecemos, assusta de tal maneira que chega a acontecer defender-se os males da democracia só para evitar esse papão. Basta lembrar como nas últimas eleições brasileiras vários comentadores defenderam o PT, usando como argumento que era preferível um corrupto a um populista.

O problema é que a verdadeira ameaça à democracia não é o populismo. O populismo é a reacção à crise que a nossa democracia atravessa. É a reacção à promiscuidade entre políticos, poder económico e jornalistas. É a reacção aos escândalos de corrupção e amiguismo que assombram a nossa classe política e que passam impunes. É a reacção aos partidos cada vez mais fechados sobre si mesmos, os seus esquemas de poder e os seus tachos. É a reacção a uma comunicação social pouco isenta, ao serviço do poder e de agendas ideológicas. É a reacção à economia de compadrio. É a reacção ao falhanço do Estado Social, com uma justiça lenta, um SNS a cair aos pedaços e uma Segurança Social afundada em burocracia. É a reacção a um sistema onde os políticos respondem ao directório do partido e não aos cidadãos.

É disto que o populismo se alimenta. Evidentemente que o faz muitas vezes de forma pouca honesta, empolando e descontextualizando factos para manipular a insatisfação popular. O populismo vive da revolta, e por isso tem que a alimentar.

Criar um cordão sanitário à volta dos populistas, desprezando os factos que o alimentam, catalogar de populista qualquer pessoa que alerte para a crise do regime, ridicularizar aqueles que defendem algumas das causas que os populistas tomaram de assalto, não só não resolve o problema do populismo, como só o alimenta.

Fingir que a corrupção não é um problema, ignorar os problemas de criminalidade em certos bairros, ridicularizar quem defende a Vida e a Família, insultar quem demonstra receios com a crise migratória, cerrar fileiras à volta dos aparelhos dos partidos tradicionais, mesmo quando há evidências claras de comportamento menos ético, é apenas lançar combustível para uma fogueira. Como os Estado Unidos e o Brasil demonstram claramente.

O populismo é um sintoma de um regime doente. É a febre de uma infecção. Podemos tomar paracetamol, e este até pode trazer algum alívio. Mas a doença não só não vai desaparecer, como vai provavelmente piorar, até a infecção estar tão espalhada que nenhum remédio a resolve.

Mais importante do que combater o populismo, é combater a doença que assola a nossa democracia. É combater a corrupção, aproximar os eleitos dos eleitores, é garantir uma imprensa isenta, uma justiça célere, um Estado Social que funcione, acabar com a economia de compadrio, a promiscuidade entre políticos, bancos e as grandes empresas. Ou seja, mais importante do que combater o populismo é fortalecer a democracia e garantir um sistema justo. Se formos capazes de o fazer, então o populismo irá desaparecer. Como a febre desaparece quando se acaba a infecção.

Ao contrário do que os populistas tentam vender, ainda existem muitos políticos honestos que trabalham pelo bem comum, muitos jornalistas isentos que vivem a missão de informar o público e muitos empresários que com o seu trabalho criam riqueza para o país. Esta é a sua hora. Hoje mais do que nunca é preciso apoiar e incentivar aqueles que servem realmente ares publica. Caso contrário só resta esperar até que a alternativa de voto seja nos “donos disto tudo” ou nos populistas. E aí será indiferente, porque estaremos só a assinar a certidão de óbito da democracia.