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Às vezes penso na quantidade de energia de crença que é necessária para levar a sério a política portuguesa. “Levar a sério” é, se calhar, até pedir demais. Pura e simplesmente para acreditar em algo como a política portuguesa, levando-a a sério ou não. E a razão, no fundo, é simples. Acreditamos em formas, preferimos certas formas a outras, decidimos por certas formas em detrimento de outras, no juízo político como noutras matérias. Ora, tudo à nossa volta se tornou informe. Não uma coisa ou outra, não num momento ou noutro. Tudo, a todo o tempo. Portugal transformou-se numa espécie de magma sem identidade discernível. Paradoxalmente, se não fosse Bruxelas essa perda de identidade ainda seria mais radical. Provavelmente, deixaríamos de existir, o que quer que isso queira dizer. Com a União Europeia, somos pelo menos uma parte dela. Não mais do que isso, mas ao menos isso. E, quanto mais não seja por causa disso, temos razões para agradecer àquela senhora com aspecto de extra-terrestre, Ursula von der Leyen.

Não foi sempre assim. Deus sabe que Portugal tem, desde há muito, uma existência atrapalhada, dependendo à sua maneira, como dizia o outro, da bondade de estranhos. Mas, bem ou mal, a dependência dessa bondade acidental conseguiu conviver com algo como uma forma política própria e com aquele sentimento que se costuma chamar “identidade nacional”. A última vez que isso se verificou, em circunstâncias, de resto, difíceis, não foi aliás há muito tempo. Foi no tempo da troika, no tempo em que Passos Coelho era primeiro-ministro e Cavaco Silva Presidente da República. Apesar das divisões no seio da sociedade, o grosso desta conseguiu unir-se. E conseguiu unir-se graças à extraordinária coragem política de Pedro Passos Coelho e ao apoio firme de Cavaco Silva. De um modo ou de outro, a forma do país manteve-se, e manteve-se tão eficazmente que, passado já o período mais duro da crise, Passos Coelho voltou a vencer as eleições.

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