Às vezes penso na quantidade de energia de crença que é necessária para levar a sério a política portuguesa. “Levar a sério” é, se calhar, até pedir demais. Pura e simplesmente para acreditar em algo como a política portuguesa, levando-a a sério ou não. E a razão, no fundo, é simples. Acreditamos em formas, preferimos certas formas a outras, decidimos por certas formas em detrimento de outras, no juízo político como noutras matérias. Ora, tudo à nossa volta se tornou informe. Não uma coisa ou outra, não num momento ou noutro. Tudo, a todo o tempo. Portugal transformou-se numa espécie de magma sem identidade discernível. Paradoxalmente, se não fosse Bruxelas essa perda de identidade ainda seria mais radical. Provavelmente, deixaríamos de existir, o que quer que isso queira dizer. Com a União Europeia, somos pelo menos uma parte dela. Não mais do que isso, mas ao menos isso. E, quanto mais não seja por causa disso, temos razões para agradecer àquela senhora com aspecto de extra-terrestre, Ursula von der Leyen.

Não foi sempre assim. Deus sabe que Portugal tem, desde há muito, uma existência atrapalhada, dependendo à sua maneira, como dizia o outro, da bondade de estranhos. Mas, bem ou mal, a dependência dessa bondade acidental conseguiu conviver com algo como uma forma política própria e com aquele sentimento que se costuma chamar “identidade nacional”. A última vez que isso se verificou, em circunstâncias, de resto, difíceis, não foi aliás há muito tempo. Foi no tempo da troika, no tempo em que Passos Coelho era primeiro-ministro e Cavaco Silva Presidente da República. Apesar das divisões no seio da sociedade, o grosso desta conseguiu unir-se. E conseguiu unir-se graças à extraordinária coragem política de Pedro Passos Coelho e ao apoio firme de Cavaco Silva. De um modo ou de outro, a forma do país manteve-se, e manteve-se tão eficazmente que, passado já o período mais duro da crise, Passos Coelho voltou a vencer as eleições.

Sabe-se o que veio depois. António Costa montou a “geringonça” e, passado pouco tempo, Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente da República. E, sob o duplo signo da habilidade e dos afectos, de que as duas personagens respectivamente se orgulham, o informe começou a tomar conta de tudo. A princípio, no doce idílio com o PC e o Bloco, uma suave informidade cuja imagem de marca era o “virar a página da austeridade”. À custa das célebres “cativações” é claro. Mas a mentira e uma dose razoável (ou mesmo desrazoável) de falta de vergonha oferecem aparentemente encantos apreciáveis. Tanto mais que as clientelas que era preciso cortejar foram efectivamente beneficiadas. E assim, nessa suave informidade, se passou uma legislatura. O problema é que a informidade, cultivada com habilidade e afectos, tendeu a alastrar-se insidiosamente. A primeira vítima de António Costa foi o futuro. Uma mentirinha aqui, outra mentirinha ali, tendem inevitavelmente a tornar o futuro dificilmente concebível, um mero apêndice incerto do presente, muito para lá da incerteza constitutiva que o caracteriza. Dito de outra maneira: da sua forma sempre precária, porque apenas imaginada, sobrou pouco. O que está à nossa frente, o que nos espera, resiste até ao exercício da imaginação, quanto mais à prática do cálculo.

Finda a primeira legislatura, e com a ajuda do coronavírus, simultaneamente causa de males e revelador de males anteriores e profundos, a informidade deu um novo passo, tomando agora também conta do presente. Basta ver o que dizem os ministros, transformados em meras máquinas de palavras, descarregados do fardo aparentemente inútil da responsabilidade. Pedro Nuno Santos, por exemplo, tanto pode dizer que metros e comboios cheios são lugares definitivamente vedados à infecção pelo coronavírus como declarar ser o intrépido salvador de uma TAP integralmente nossa. Eduardo Cabrita auto-designa-se, no contexto da selvajaria do SEF no aeroporto de Lisboa, como o solitário cavaleiro dos direitos humanos, sem responsabilidade alguma pelas acções dos seus subordinados. Marta Temido e os seus ajudantes empenham-se alegremente em confundir para além do tolerável as pobres cabeças dos portugueses, seguindo o seu particular fio condutor de ódio a tudo o que cheire a privado, apesar dos avisos de vária gente que tem experiência directa das condições de combate à pandemia. E Augusto Santos Silva, indiscutivelmente mais esperto, segue a prudente via de repetir tudo o que António Costa, a sua última pedra de toque da verdade, afirma ou sequer sugere.

A realidade que podemos atribuir a qualquer um destes indivíduos é sem dúvida ténue. E eu não tenho inveja alguma dos esforços que os comentadores políticos que se ocupam da sua existência são obrigados a desenvolver para acreditarem de forma convicta na sua existência, na existência das máquinas de palavras mais falantes do Portugal informe de António Costa. A única razão para os ler é que, num pequeno número de casos, eles dão eficazmente a ver os laços causais existentes entre o desprezo pela responsabilidade dos políticos e a muito efectiva informidade que vai dando cabo da sociedade no seu conjunto e também da acção política, tal como, com todas as dificuldades, apesar de tudo ainda não há muito tempo – isto é, antes de António Costa –, era concebida.

Não terá isto solução? Pode bem acontecer que tenha. Mas ela exigirá uma mudança radical do pessoal político. Cabeças que saibam dar forma a projectos e que disponham de uma cultura política efectiva, que não se confunda com a consabida habilidade dos arranjinhos de ocasião. Se aparecerem pessoas assim, e era óptimo que aparecessem: boa sorte!