Cansa já – e muito – os gritos contra os populistas, a quem também gostam de apelidar de fascistas.

Num artigo recente José Manuel Fernandes dizia que qualquer dia puxa da pistola (metaforicamente) se voltar a ouvir essa lenga-lenga. É o que dá vontade. E dá, em 1º lugar, porque se os populistas – ou os verdadeiros fascistas – ganham terreno é porque o establishment político – os supostos iluminados – têm vindo a falhar há décadas. Como?

  1. Não mudando as classes dirigentes, que se eternizam.
  2. Não cumprindo – com a maior desfaçatez – as promessas eleitorais que fazem, quando vão a votos.
  3. Não fazendo nada, para que a corrupção, seja de facto contida e combatida.
  4. Aceitando (aliás promovendo), numa paródia de democracia, que a mesma se esgote na urna onde se coloca o voto.
  5. Criando uma ideia – falsa – de que são os detentores únicos do conhecimento (acompanhados pelos media que vivem do poder e por muitos comentadores do burgo) nas matérias da governação.
  6. Não “descendo à terra” e desprezando os anseios e receios do povo, entendo que só eles é que sabem o que o povo, realmente, quer.
  7. Impondo a tirania do politicamente correcto
  8. Promovendo o relativismo cultural
  9. Permitindo à extrema esquerda ter uma influência maior do que aquela que os seus votos representam.
  10. Delapidando as tradições que nos fizeram ser o que somos, nomeadamente enquanto Nação.

Não faria sentido um mea culpa, uma reflexão, uma conversão? Pois nada fazem. O que fazem é culpar os protagonistas (Trump e Bolsonaro, p.ex.) e, de caminho, o povo que vota.

Ora, o povo que vota é o mesmo de sempre. Temos, portanto, esta análise profunda que é a de que, quando o povo vota “bem”, ou seja, de acordo com o politicamente correcto, o povo é soberano, é conhecedor, é sábio, etc. Quando vota nos populistas, é burro, manipulado, ignorante, etc.

Só que o povo é exactamente o mesmo. E esse povo – transversalmente – vota em populistas. Analistas e comentadores gostam de acantonar esses votos, dizendo, por ignorância ou má fé, que quem votou em Trump ou Bolsonaro foram os ricos, ou os iletrados, ou os afectos a uma religião ou a uma etnia. No entanto, uma breve análise prova que quem neles votou, foram ricos e pobres, brancos e negros, licenciados e não licenciados, homens e mulheres, classes médias, urbanos e provincianos, ateus e agnósticos, e também crentes. Foi de tudo, senão não ganhavam as eleições.

A seguir vem o ainda mais inacreditável que é criticar os populistas por cumprirem as promessas eleitorais! Podemos estar em desacordo com as medidas, mas criticar quem quer cumprir aquilo que prometeu, aos que nele votaram, é não ver o problema, é cavar o buraco em que nos meteram e é continuar a dar trunfos aos ditos populistas.

Trump e Bolsonaro não apareceram de gestação expontânea. Apareceram, e mais vão aparecer, pela sementeira que foi criada pelos partidos e políticos que nada fazem, mas que dizem que tudo deve mudar (para que, afinal, tudo fique na mesma).

Como optimista, espero que esta onda traga a reflexão necessária aos poderes — ainda instalados — para mudarem a sua maneira de ser. Nos EUA o partido democrata está a reflectir para compreender as razões de queixa daqueles que temem a imigração. E por cá? Faz o PS algum mea culpa de nos ter levado à falência? De ter tido no seu seio uma grupeta de corruptos? Não, não faz. Aliás mantém no Governo quem com os corruptos conviveu, querendo que acreditemos que nem incompetentes eram (apesar de não se terem apercebido de nada). E o PSD? Depois de ter tido um primeiro-ministro que conseguiu guiar o país por uma das suas grandes tormentas, faz tudo para esquecer esse passado do qual se devia orgulhar, não pensando sequer no povo que, apesar das dificuldades passadas, lhes fez ganhar as eleições (sim, o povo é tão burro que, mesmo sofrendo, votou em quem lhe fez mal…). Continuem assim e depois admirem-se.

Militante do CDS-PP. Politólogo