As preocupações manifestadas por Marcelo Rebelo de Sousa relativamente aos jovens, na sessão de abertura da Conferência Mundial de Ministros Responsáveis pela Juventude 2019 e do Fórum da Juventude “Lisboa+21”, representam a quarta cena de uma mesma peça com cenário em Belém.

De facto, quando escrevi o livro Presidentes da República no Portugal Democrático: eleições, dinheiros e vetos, constatei que as preocupações com os jovens constituíram uma quase constante dos discursos dos Presidentes da República, após a entrada em vigor da Constituição de 1976.

Assim, Mário Soares, numa das suas múltiplas intervenções sobre a temática, mostrou-se preocupado com o atraso do país, pois era urgente “uma estratégia de desenvolvimento” que garantisse “o emprego – sobretudo aos jovens”. Mais disse que era preciso “mobilizar os Portugueses – e em especial os jovens – para os grandes desa­fios”. Um projeto que deveria ter em conta o “idealismo moral dos jovens na defesa das causas generosas”. Para tal, havia que “ensinar aos jovens a força criadora da liberdade”.

Quanto a Jorge Sampaio, promoveu um roteiro direcionado para a juventude, pois queria “valorizar o modo como os jovens devem participar na sociedade em profunda transformação”, uma vez que, na sua opinião, “a qualidade do sistema político depende do rejuvenescimento de ideias. E os jovens são os futuros governantes, autarcas e dirigentes políticos do País”. Uma realidade que não colhe junto de alguns dinossauros da vida partidária e política.

Cavaco Silva não ficou atrás dos seus antecessores. O seu desejo de compreender a génese do problema levou-o a encomendar um estudo à Universidade Católica sobre “as atitudes e comportamentos políticos dos jovens em Portugal”. Um trabalho científico que o deixou preocupado. Então não era que os jovens portugueses não sabiam o que o 25 de Abril representava para Portugal?! Aliás, até faziam “afirmações que surpreendem pela ignorância de quem foram os principais protagonistas, pelo total alheamento relativamente ao que era viver num regime autoritário”.

Como se percebe, nesta cronologia falta o primeiro Presidente democraticamente eleito, o General Ramalho Eanes. A razão é simples. Uma opção do autor devido ao facto de o General que recusou ser Marechal, no auge da crise provocada pelas imposições do segundo pedido de resgate ao FMI, ter afirmado que “uma parte significativa da juventude portu­guesa não viveu, ou se viveu não sentiu, o regime anterior”, mas certamente não aceitava que houvesse quem “de forma expe­dita e ilegítima” fosse “enriquecendo rapidamente, sem capacidade para um trabalho sério, sem esforço honesto”.

Afinal, desde Eanes que os jovens se veem confrontados com quem faz do enriquecimento ilícito o modo de vida. A dimensão do artigo não permite elencar todos os políticos que estão – ou estiveram – a contas com a justiça devido à má gestão da res publica. Sem contar que não serão necessários dons especiais para prever que mais políticos se irão sentar no banco dos réus devido à promiscuidade entre os mundos ou interesses da política (com «p» minúsculo), da banca, da justiça, das empresas…

Voltando às preocupações de Marcelo Rebelo de Sousa, não parece abusivo dizer que, embora legítimas, transmitem uma sensação de déjà vu. Os exemplos apresentados constituem uma gota de água no oceano dos discursos presidenciais voltados para os jovens. Aqueles que, segundo o atual Presidente, não têm “um sentimento de pertença” em relação aos partidos e à vida política.

Como se constata, os discursos presidenciais de boas intenções pouco mudaram. Tal como o comportamento dos partidos e a realidade política. No entanto, o mesmo não se passou com a juventude. Na verdade, os jovens destinatários dos discursos iniciais já fazem parte da atual geração grisalha.

Professor de Ciência Política