Rádio Observador

Vladimir Putin

O Presidente Putin foi a Roma ver o Papa? /premium

Autor
283

O principal objectivo da visita do senhor do Kremlin a Roma não foi o encontro com o Papa, mas sim com os dirigentes italianos que, com a sua política, visam minar a já fraca unidade europeia.

O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, esteve em visita oficial a Itália e aproveitou a oportunidade para visitar o Papa Francisco, mas o objectivo principal da viagem foi encontrar-se com os seus amigos de extrema-direita que governam aquele país. A ida à Santa Sé não passou de um encontro protocolar.

Em termos de protocolo, não obstante o encontro do Papa ser o primeiro da lista de encontros em Roma, o dirigente russo atrasou-se mais uma vez para o encontro com o Papa no Vaticano. Já não foi mais de uma hora como na vez passada, em 2015, mas “apenas” meia hora.

Em 1935, numa conversa entre José Estaline e o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Pierre Laval, realizada pouco depois da Alemanha restabelecer as suas forças aéreas e implementar o serviço militar obrigatório, o ditador soviético perguntou-lhe de quantas divisões militar dispunha a França e, depois da resposta a essa pergunta, Laval deu-lhe a entender que o alívio da situação dos católicos na União Soviética, onde eram ferozmente perseguidos, poderia contribuir para o melhoramento das relações entre a Santa Sé e a URSS. Foi então que Estaline fez uma das suas famosas perguntas: e quantas divisões militares tem o Papa?

Longe de querer comparar Putin a Estaline, será que o actual dirigente russo não compreende a influência do Papa no mundo ou pensa que está mesmo a construir “Moscovo – Terceira Roma” ou a “salvar a Humanidade do Anticristo”, como afirmam alguns teorizadores do “messianismo russo”?

Desta vez, Vladimir Putin não convidou Francisco I para visitar a Rússia, embora o Santo Padre tenha expresso esse desejo na sua visita à Bulgária, em Maio passado, país também cristão ortodoxo. Já podia parecer feio. Os dirigentes soviéticos e russos, desde Gorbatchov ao actual, passando por Boris Ieltsin, fizeram esse convite a vários Papas quando visitaram o Vaticano, mas nenhuma foi realizada devido à oposição da hierarquia da Igreja Ortodoxa da Rússia, a maioria da qual continua a olhar para os católicos como “hereges”.

No caso de Putin, a questão é ainda mais delicada porque já se encontrou duas vezes com João Paulo II, uma com Bento XVI e duas com Francisco.

Em nome da Igreja Ortodoxa Russa, Vladimir Legoyda reagiu da forma mais diplomática possível ao encontro: “Sabemos também que o Vaticano e a Rússia têm posições semelhantes quanto a numerosas questões da política internacional, consideram importante o apoio aos valores tradicionais como o casamento e a família, a defesa dos direitos dos cristãos nas regiões onde são perseguidos. Por isso, este encontro é incondicionalmente importante e útil”, frisou o sacerdote ortodoxo.

No entanto, ele frisou que “vale apenas lembrar uma vez mais que a Santa Sé é uma formação muito semelhante, pelo seu estatuto, a um Estado: participa em acordos e organizações internacionais, tem representações em muitos Estados. Por isso o encontro do Presidente da Rússia e do Papa Francisco foi um encontro que, pela sua natureza, tem um carácter inter-estatal, se quiserem, secular”.

Há alguns círculos na Igreja Católica Apostólica Romana que veem o combate pelos valores tradicionais uma das plataformas para uma aproximação e até união num futuro longínquo com a Igreja Ortodoxa Russa, mas não tenham muitas ilusões, pois o catolicismo é uma das componentes do anti-ocidentalismo pregado pela propaganda russa. Poderão ter algumas esperanças os católicos tradicionalistas que defendem o regresso da Igreja Católica ao período anterior ao Concílio Vaticano II.

Não se pode esquecer também que o Papa Francisco e Vladimir Putin têm ideias opostas em questões como a dos imigrantes. Apresentando-se como defensor dos cristãos nos países onde são perseguidos, e aqui tem-se em vista principalmente a Síria e a Ucrânia, o dirigente russo, ao contrário do Santo Padre, critica a Ângela Merkel pela sua política de acolhimento dos refugiados.

É difícil acreditar numa coincidência de posições entre o Papa e Putin também nos métodos necessários para defender os direitos humanos e a justiça social.

Por conseguinte, o principal objectivo da visita do senhor do Kremlin não foi o encontro com o Papa, mas com os dirigentes italianos que, com a sua política, visam minar a já fraca unidade europeia. Giuseppe Conte dirige um governo apoiado pela extrema-direita e do qual faz parte um dos amigos de Putin: Matteo Salvini. Eles defendem, por exemplo, o levantamento das sanções económicas que foram impostas pela União Europeia à Rússia depois desta última ter ocupado a Crimeia em 2014.

E claro que Putin não poderia deixar de se encontrar com o seu amigo de velha data: Silvio Berlusconi. Bem diz o ditado: “diz-me com quem andas, digo-te quem és”.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Rússia

A Cortina de Ferro volta a fechar-se? /premium

José Milhazes
249

Os cientistas estrangeiros, quando de visitas a organizações científicas russas, só poderão utilizar gravadores e máquinas copiadoras “nos casos previstos nos acordos internacionais".

Rússia

Chega de brincar à democracia! /premium

José Milhazes
360

A polícia e os tribunais russos viram o que ninguém viu e vários manifestantes e candidatos a deputados foram acusados e serão julgados por "organização de desordens em massa", podendo ficar presos.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)