Donald Trump e Theresa May são hoje uma espécie de Ronald Reagan e Margaret Thatcher a contrario.

Se a dupla que governou os EUA e o Reino Unido nos anos 80, e que contribuiu decisivamente para a liberalização da economia, para uma maior globalização do comércio, e para a maior eliminação de barreiras (fiscais, aduaneiras e políticas) à economia, à inovação e à criatividade que o Mundo já assistiu, e em consequência disso, fez aumentar os níveis de rendimento, conforto e acesso a bens e serviços; a dupla Trump-May não podia ser mais antagónica no discurso, na retórica e na falta de pragmatismo.

As diferenças não podiam ser mais gritantes e óbvias que o exercício de comparação se torna ridiculamente simples.

Se para Reagan e Thatcher o problema estava no excessivo peso do Estado e do Governo na economia e na vida das pessoas, o problema para Trump e May está no capitalismo, na liberdade e na globalização.

Se Reagan e Thatcher foram os pais do liberalismo e das décadas de maior desenvolvimento e crescimento económico global, Trump e May propõem-se a ser os pais do último grito do proteccionismo e do isolamento.

Quando comparamos os discursos de tomada de posse de Reagan e Trump, não podemos encontrar visões do mundo e da sociedade tão diferentes e simultaneamente tão opostas entre si. Como escreveu Damon Linker na The Week o partido Republicano de Reagan morreu no dia 20 de Janeiro de 2017.

Enquanto que Reagan se propunha a fazer reduzir o Estado e a acção do Governo Federal o mais possível, Trump promete um Estado vigiliante e musculado, um Estado que pretende limitar a acção das empresas e do capital. De um Estado que construirá muros, estradas, aeroportos e demais infra-estruturas com dinheiros públicos, qual visão Socrática (à Portuguesa) do dinheiro dos contribuintes. De um Estado que penalizará, através dos impostos, a livre circulação do capital e do trabalho.

Trump propõem-se a contrariar a natureza liberal e capitalista dos EUA, para assim poder responder ao seu eleitorado. Um eleitorado que olha de lado para as suas gravatas “Donald Trump” Made in China.

Trump até pode obter, no curto prazo, resultados económicos positivos decorrentes das suas políticas proteccionistas e isolacionistas.

Contudo, a economia e a história já nos ensinaram diversas vezes que políticas deste tipo não geram mais riqueza nem bem estar, mas sim pobreza e fome.

Donald Trump e Theresa May têm outro problema: não podem satisfazer as pretensões do seu eleitorado que grita por proteccionismo e menor globalização e, simultaneamente tornar os seus países mais competitivos (ou no caso do Reino Unido, uma espécia de Singapura da Europa), mais avançados tecnologicamente, e um exemplo para o Mundo livre.

Trump ainda não percebeu que a razão de ser da supremacia Norte-Americana não está no isolacionismo que agora defende e propõe, mas na globalização e no liberalismo que ali nasceu.

A América é grande não porque se fechou ao Mundo, mas porque se abriu a esse mesmo Mundo.

O populismo e a retórica de Trump e de May (ainda que em menor intensidade no caso da Primeira Ministra Britânica) podem atrair (e até devolver a esperança) os “esquecidos” da globalização. Não nego isso. No entanto, serão estes, e não a “elite liberal” de Davos que tanto criticam, os primeiros a perceber que um discurso “America first” ou “one Nation” não passm de frases feitas vazias de conteúdo.

A seu tempo Trump e May perceberão que aquilo que defendem não passa da fórmula para o desastre.

Jurista, vive e trabalha em Londres