Quantos PS existem? A pergunta parece absurda, mas quem ler as entrevistas de Seguro ou ouvir as declarações de Costa reconhece que ela é inevitável. É que, tudo leva a crer, na cabeça de cada um dos candidatos, o PS é dois partidos diferentes. Um, pleno de virtudes, que constitui uma alternativa política e separa os negócios da governação. Outro, pleno de vícios, que não é alternativa e está capturado pelos tentáculos invisíveis dos interesses. Talvez sejam maniqueísmos eleitorais. Mas, seja o que for e para surpresa de ambos os candidatos, o partido socialista é mesmo só um e tem mais vícios do que virtudes. Vícios que não vão desaparecer em Outubro, após as primárias. Não há nada a fazer: o PS não se livra do PS.

Respiremos fundo e mergulhemos no mundo desta campanha interna. O que encontramos? À superfície, intrigas, caciquismo e ressentimentos pessoais. Mas o que interessa são as revelações tardias e as ilusões de ambos os lados. Veja-se que, por estratégia, Costa levou 2 anos a admitir que o PS de Seguro não era alternativa política ao Governo. E que Seguro, pelas mesmas razões, demorou 3 para assumir que o PS que herdou integra a uma espécie de partido invisível dos negócios. Comuns na hipocrisia, fica também a certeza que nenhum está imune aos vícios que aponta. O PS que criticam é, na verdade, o PS que representam.

António José Seguro foi claro na linha que traçou: a “fratura é entre a nova e a velha política. A velha política que mistura negócios, política, vida pública, interesses, favores, dependências, jogadas e intriga” – e “o que existe no PS mais associado a essas coisas é apoiante de Costa” (Visão, 2014.07.31). Compreende-se a acusação de Seguro e é impossível não lhe reconhecer alguma razão. Mas será ele um garante de comportamentos éticos na política? É obrigatório duvidar. Por um lado, também ele tem apoiantes que estiveram ligados à infame liderança de José Sócrates (como Alberto Martins e Francisco Assis) ou apoiantes que têm no seu passado suspeitas de condutas impróprias (como João Soares). Por outro lado, em termos de ética, a campanha eleitoral socialista para as europeias foi esclarecedora quanto ao que Seguro está disposto a fazer para assegurar a vitória – forjar contactos com as populações recorrendo a militantes, e usar centros de dia/noite como cenário e idosos como figurantes involuntários (cf. a reportagem de Gonçalo Bordalo Pinheiro, no Observador).

Com António Costa, acontece o mesmo. O autarca acusa Seguro de não ser a alternativa política que o país precisa e diz que com ele é que será. Ora, de facto, o que Seguro promete – baixar o IVA da restauração, acabar com a CES ou baixar o défice por via do combate à evasão fiscal – é incompatível com a ideia de uma alternativa, pelo facto de comprometer a consolidação orçamental. Só que, por seu lado, Costa não apresenta nada. Zero. Diz que a solução para a situação económica do país passa por criar mais riqueza. Explica que não há licenciados a mais, mas empregos a menos. E dá a conhecer uma agenda de governação para uma década sem referir a consolidação orçamental ou a Europa – isso fica para “depois”. Ou seja, Costa acusa mas, quanto mais fala, mais as promessas de Seguro parecem razoáveis.

O retrato dos candidatos é, então, o retrato do partido. Anulados enquanto foi necessário, vagos nos compromissos, precipitados nas acusações e reféns da ambição, Costa e Seguro são um só. Duas faces da mesma moeda. E, por isso, apesar das acusações, duas faces de um mesmo partido. Assim, ganhe quem ganhar, o PS ficará na mesma. É que as alternativas não se constroem sem um rumo político. E, entre as lideranças partidárias e os interesses instalados, todos sabemos quem ganha.