No actual equilíbrio de forças, o PS escolhe o lado da social-democracia (do Euro e do Tratado Orçamental), ou o lado dos movimentos de esquerda populista (da ruptura com as regras europeias)? A pergunta não é de agora, impôs-se há demasiado tempo ao PS e a todos os grandes partidos do centro-esquerda europeu, aos quais a crise das dívidas soberanas forçou uma redefinição política. E o PS adiou a sua redefinição, tentando estar simultaneamente em ambos os lados – agradar a gregos e a troianos, a moderados e a radicais. Ora, essa indefinição do PS foi, desde 2011, um problema interno do partido. A escolha era do PS, as consequências (políticas e eleitorais) dessa escolha recaiam sobre os socialistas. Mas hoje isso mudou e, a partir deste dia 5 de Outubro, a indefinição do PS passou a ser um problema de todos os portugueses. Perante um governo minoritário de PSD/CDS, o país assentou o futuro nas mãos do PS, a quem compete decidir se deseja ser um eixo de estabilidade política ao lado de PSD e CDS, ou se prefere ir gerindo rupturas com PCP e BE até precipitar o país numa crise política.

O dilema é o mesmo com que o PS evitou lidar nestes últimos anos: social-democracia ou populismos de esquerda, estabilidade ou ruptura. Com a diferença de que, neste momento, a decisão já não pode ser protelada. Começa a ser definida na votação do programa de governo que PSD e CDS apresentarão dentro de dias, continua na discussão do Orçamento de Estado para 2016 (em Outubro e Novembro), e prolonga-se em vários dossiers sensíveis da governação (nomeadamente o da segurança social). Aceitará o PS negociar tudo isto com os partidos à direita, com quem partilha concepções sobre o regime democrático, a União Europeia e a economia de mercado? Ou tentará aproximar-se de PCP e BE para, em função das conveniências de calendário, inviabilizar a acção do novo governo PSD/CDS?

Na noite eleitoral, escutámos da boca de António Costa a garantia de que o PS viabilizará o programa de governo PSD/CDS e que não é sua intenção armar obstáculos à governação da direita. É um sinal positivo. E um acto de responsabilidade que merece ser reconhecido – sobretudo por fazer justiça à história do PS, marcada pela defesa do regime contra as tentativas de apropriação dos comunistas. Mas, por enquanto, é apenas um sinal. E, como em tudo o que envolveu o PS nestes últimos tempos, outros sinais contraditórios se manifestaram.

Por um lado, António Costa não se quis pronunciar sobre o Orçamento de Estado para 2016 (que, em campanha eleitoral, anunciara chumbar), embora tenha sublinhado no seu discurso de derrota que todas as suas promessas eleitorais seriam honradas. Por outro lado, passámos a noite eleitoral a ouvir ex-governantes do PS (Gabriela Canavilhas e Augusto Santos Silva) a incentivar António Costa a fabricar acordos com PCP e BE, de modo a impedir PSD/CDS de governar e impor o PS em São Bento – no fundo, reagindo positivamente à chamada que Jerónimo de Sousa e Catarina Martins fizeram. Ou seja, o PS é ainda um partido essencialmente dividido na sua indefinição entre o rosa e o vermelho.

Devia ser evidente que há um mundo ideológico a separar o respeitável PS da extrema-esquerda (visão sobre a democracia, sobre a economia e os mercados, sobre o Euro e a União Europeia). Infelizmente, para muita gente no PS, não é nada evidente que assim seja. Portanto, resta descobrir se a garantia de estabilidade de António Costa será envenenada por essa facção do seu partido, cuja preponderância ficou saliente na campanha eleitoral do PS através dos fundamentalismos de João Galamba ou Pedro Nuno Santos. Se António Costa sobrevive à pressão interna para se demitir. E se o PS conseguirá, finalmente, reencontrar-se e falar a uma só voz. São muitos “se”. E como o futuro do PS é incerto, também o futuro político do país o é.